sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

As datas no ensino da História

Transcrito de De Rerum Natura.

O sociólogo, escritor e jornalista Francesco Alberoni (na foto) publicou a 2 de Novembro no Corriere della Sera uma crítica ao ensino italiano, cuja versão portuguesa saiu no dia 10 de Novembro no jornal "I". Vale a pena republicá-lo aqui:

"Nos últimos 40 anos, os pedagogos quase destruíram as bases do pensamento racional e os fundamentos da nossa civilização. E fizeram-no com a ajuda de uma única decisão: eliminando as datas, acabando com a obrigatoriedade de apresentar os factos por ordem cronológica. Agora é normal ouvir dizer que Manzoni viveu no século XVI. Não há razões para espanto porque na escola já não se ensinam os acontecimentos pela respectiva ordem temporal, dizendo, por exemplo, que Alexandre Magno viveu antes de César, que, por sua vez, viveu antes de Carlos Magno, e só depois vem Dante e, em seguida, Cristóvão Colombo.
Esta pedagogia foi importada dos Estados Unidos, um país sem história que tenta anular as raízes históricas dos seus habitantes para que se tornem cidadãos norte-americanos. Aplicá-la a Itália, produto de uma estratificação histórica com três mil anos, e ao resto da Europa, que tem raízes culturais gregas, romano e judaico-cristãs, é equivalente a destruir-lhes a identidade. Ao contrário de nós, as civilizações islâmica e chinesa estudam obstinadamente a sua história, para se conhecerem melhor e se reforçarem.
Perder a capacidade de ordenar cronologicamente os acontecimentos significa igualmente perder a identidade pessoal. Quando perguntamos a alguém "Quem és?", essa pessoa conta-nos o que fez e o que faz nesse momento. Quando procuramos trabalho, apresentamos o nosso currículo. Quando nos apaixonamos, contamos a nossa vida à pessoa que amamos. Hoje vemos muita gente que já não sabe ordenar aquilo que viveu e vê o passado apenas como uma sucessão caótica de acontecimentos.
A desordem no pensamento reflecte-se na língua. A escola já não ensina gramática, análise cronológica ou consecutio temporum. Há quem não distinga o passado próximo do passado remoto, quem não perceba a lógica do conjuntivo e do condicional e alguns confundem até o presente com o futuro. É a desagregação mental, a demência.
Cara ministra Gelmini, peço-lhe que me dê ouvidos e afaste todos os pedagogos desta corrente nefasta. E depois, por favor, obrigue todos os professores a fazerem um curso de História com datas e um curso de Gramática. Finalmente, mande instalar em todas as salas de aula um grande cartaz horizontal onde estão assinalados, por ordem cronológica, todos os episódios significativos da história, para que os nossos jovens possam habituar-se à sucessão temporal. Uma muleta para o cérebro."



Francesco Alberoni


ArtemInvenite Manuel de Castro Nunes disse...



Bem, não me parece que o sociólogo Alberoni tenha uma exacta noção da sucessão dos momentos cruciais do pensamento pedagógico e da epistemologia da História nas últimas décadas, talvez por andar ainda a meio do Império Romano na sua saga de fixar datas. Quer-me parecer que, quando concluir essa tarefa, passará a decorar enciclopédias.
Este é o tipo de intervenção que se começa a encravar como uma cunha no espaço exíguo que resta entre o jornalismo trivial e a divulgação social da cultura e da ciência.
Com ou sem datas, a História é uma narrativa que tenta ordenar uma sucessão, ou sobreposição caótica de «acontecimentos».
É óbvio também que não foram os pedagogos quem erradicou a predominante relevância das datas da História. Foi o pensamento epistemológico e a «praxis» da disciplina, histórica, que formularam a ideia de que havia mais para lá dos acontecimentos e da sua sucessão. A Sociologia, bem como a Antropologia Cultural dariam a estas transformações um sólido contributo doutrinal.
Porque escolas terá andado Alberoni? Será que adormeceu há sessenta anos e acordou agora?
E, porventura acordou em Roma com toda a gente à volta a falar inglês. Então pensou: aí vêm os americanos tomar conta da nossa escola.
Por amor de Deus! O estruturalismo é bem europeu... As mais profundas correntes pedagógicas da segunda metade do Século XX também, algumas americanas, mas mais do Sul.
Pelos jornais vai-se dizendo cada uma... O que vale é que já poucos os lêem. Agora vê-se mais televisão.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009



Hoje estive a rever algumas fotogradias recetes.
Encontrei isto.
Depois fui ver-me ao espelho.
Por favorm, intenem-me!



quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

O homem que fazia colheres de pau.

O estado da Nação.



O homem que fazia colheres de pau.


Dois sujeitos encontram-se circunstancialmente numa taberna e chegam à fala.


Em certo ponto da conversa vadia, pergunta um:


- E o que é que tu fazes.


- Colheres de pau.


- Colheres de pau?


- Nem mais, colheres de pau.


- E para que servem?


- Hoje em dia, para nada. Agora fazem-nas em plástico.


- Então porque continuas a fazê-las em pau?


- Ora, qualquer dia o plástico acaba-se. As árvores também, deixará de haver pau. Mas já tenho as colheres feitas. É só esperar…


- És esperto, compadre… Mas o que acabará primeiro, o plástico ou tu? Já tens… sessenta anos… não?

domingo, 15 de Novembro de 2009

Vamos ver-nos ao espelho

A Profesora Alicia Canto em Archport.


El próximo lunes 23 de noviembre a las 7 pm, en la sede madrileña de la Fundación Carlos de Amberes (c/ Claudio Coello, 99, 28006), tendrá lugar la presentación de un nuevo libro (editado por Akal) del Prof. J.C. Bermejo Barrera, catedrático de Historia Antigua de la Universidad de Santiago de Compostela, desde sus tradicionales reflexiones críticas.



Algunos de los que nos cocemos vivos en el caldo muchas veces hirviente e irrespirable de esta institución, que ha usado de la famosa "autonomía universitaria" para convertirse en un carísimas taifas que se miran complacidas el ombligo a pesar del lamentable lugar que ocupan en los ránkings internacionales, que están llenas de reguli/regulae rodead@s y protegidos por sus cohortes de devoti, como era lo natural que ocurriera tras leyes que desde 1983 han permitido llegar al 85% de endogamia (hace poco he sabido de dos nuevos casos del área de Arqueología en los que el/la mejor candidat@ objetiv@ a una plaza ha sido discrecionalmente fulminado por los "padroni" del candidat@ local), y donde la libertad de pensamiento o el exceso/calidad de la actividad científica de otros se ven como amenazas, no podremos estar más de acuerdo con las reflexiones que contiene este libro, que en parte es una recopilación de sus recientes trabajos parciales sobre el tema, escritos por uno de los pocos "críticos de plantilla" que tenemos en España:


La fábrica de la ignorancia. La universidad del 'como si'


Sinopsis


Suele creerse, y así debería ser, que la universidad es una institución destinada a producir las diferentes clases de saberes, en la que unas personas inteligentes, desinteresadas y dotadas de espíritu crítico desempeñan su labor. La realidad está muy alejada de esta imagen. En los últimos treinta años, las universidades españolas han crecido desmesuradamente sin planificación alguna, al tiempo que recibían cuantiosos medios y comenzaban a producir conocimiento de modo similar a las de los países más desarrollados. No obstante, se ha desembocado en un estrepitoso fracaso y una caótica situación que las ha llevado a ser prácticamente irreformables. Sus sistemas de gobierno, concebidos como mímesis del gobierno de una nación, la multiplicación de centros y la descoordinación absoluta entre las diecisiete autonomías han permitido el secuestro de la universidad por parte de sus profesores y de su personal administrativo. Apelando a modelos políticos y sindicales sólo aparentemente democráticos, se ha logrado anular el espíritu crítico con el fin de poderlas controlar para beneficio de los intereses corporativos y convertir la búsqueda del conocimiento en una enloquecida carrera burocrática en la que todos hablan de lo que no son, en la que nadie cree lo que nadie dice, y en la que su distancia con el mundo real crece a una velocidad de vértigo.


Prólogo: Conócete a ti mismo


Introducción: Oligarquía y caciquismo en la Universidad española


I. La imaginación al poder y la política de la imaginación


II. Usted no sabe con quién está hablando! O cómo la configuración de la universidad como un teatro político consiguió mantener viva la esencia del franquismo


III. El proceso de Bolonia, o cómo cuadricular el caos


IV. ¿En qué creen los profesores y por qué es tan fácil manipularlos?


V. La paradoja de la publicación


VI. Un galimatías económico: el capitalismo imaginario y la génesis de las oligarquías académicas


VII. El funcionario mediocre y el futuro de la universidad española


Bibliografía




El libro en la web de la USC (con el prólogo): Fírgoa es uno de los más interesantes "espacios comunitarios" de una universidad española, lleno de información, comentarios (véanse ambas barras laterales) y novedades del ámbito académico.


Polémica por la absurda censura que el CSIC hizo (mayo de 2008) a un artículo de Bemejo en Arbor (fue retirado "cautelarmente" cuando ya estaba publicado, en papel y en Internet).


Otros artículos de opinión del mismo autor (recomiendo ?El funcionario mediocre y el futuro de la universidad española?)


Añado algo más sobre el poco conocido problema de la endogamia universitaria en España (a la hora de, como le ocurre a gran parte de la sociedad, creerse sin más lo que le cuentan, o respetar indiscriminadamente a sus miembros), y que es un fenómeno que está en la base de muchos problemas denunciados:


El 70% del profesorado titular universitario obtiene su plaza como único candidato (estudio del CSIC, 2006)


"... La mínima competencia por las plazas y la falta de movilidad exterior de los profesores titulares son para los autores los datos más alarmantes de la encuesta. Respecto al acceso, subrayan que el 70% de los titulares ganó su oposición sin competencia, que el 56% se presentaba por primera vez, o que el 71% se había doctorado en el mismo centro donde obtuvo la plaza... En cuanto a la falta de movilidad internacional, es un déficit que se repite a lo largo de todas las etapas de la carrera académica. Así, el 56% de los encuestados no había realizado ninguna estancia en el extranjero durante su etapa posdoctoral (entre la presentación de la tesis y la obtención de la plaza). Tras alcanzar el estatus de funcionario, la movilidad desciende aún más, y son el 80% los que no realizan estancias en el extranjero..."

(Aunque el CSIC, cuyos tribunales, desde el franquismo, siguen siendo nombrados a dedo en su totalidad -como ahora ya también los de la Universidad, tras la "reforma" del presente gobierno-, no puede dar lecciones de endogamia a nadie).


El Pacto de Estado por la Ciencia, los mandarines y los otros (art. en El País, 2004):

"... En la segunda quincena de septiembre de 2002 se celebró, en la Facultad de Ciencias Matemáticas de la Universidad Complutense de Madrid, el I Congreso sobre Corrupción en la Universidad Pública Española. Cien profesores de distintas universidades públicas debatieron los problemas que afectan a estas instituciones: endogamia, prevaricaciones, exclusión de profesores independientes o que se niegan a participar en la corrupción, etcétera. Las actas de este Congreso constituyen una verdadera crónica de horrores. En el Manifiesto se afirma: "Ninguna de nuestras universidades forma parte de las cien mejores del mundo en resultados de investigación". Evidente...."


Crónicas del


Primer Congreso Nacional sobre la Corrupción en la Universidad Pública Española (Alcalá de Henares, 2002)


Segundo congreso sobre la corrupción y el acoso en la universidad pública (Madrid, octubre de 2006).


Tercer congreso sobre la corrupción y el acoso en la universidad pública (Madrid, 17-18 de octubre de 2008)


Plataforma contra la corrupción y el acoso en la universidad pública (permanente, con abundantes casos prácticos, y eso que la inmensa mayoría no se denuncian).


En fin, para qué seguir. Remito a estas más de 21000 entradas en Google sobre el tema.


Como he escrito otras veces, desde los tiempos de don Santiago Ramón y Cajal, quien hace más de un siglo ya dijo que la mala calidad del profesorado era la principal culpable de los fallos en la calidad investigadora y docente españolas, no ha habido gobierno de ningún color que se haya atrevido a "meter el bisturí" (como decía aquel sabio) a la Universidad, y su proliferación (desde las CCAA: 1978) y autonomía (1983...) no han hecho más que empeorar el problema y dificultar su solución. Así que los resultados no pueden ser otros, ni mejores. Pero al menos debemos ser conscientes de ello.


Saludos, A. C.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

A propósito da peregrina ideia de supressão do Museu Nacional de Arqueologia

A propósito da peregrina ideia de supressão do Museu Nacional de Arqueologia



Bem, não há ideia que, do ponto de vista doutrinário, não seja válida como proposta de reflexão e ponderação. E se não houver ideias novas, mesmo que venhamos a verificar que não têm nem tinham qualquer sentido ou oportunidade, ficaremos circunscritos às velhas, que foram, no acto e tempo da sua formulação, novas.


Vem isto a propósito do retomar da questão no âmbito de uma troca de intervenções em archport a propósito da forma como se encontram expostos os monumentos epigráficos recolhidos no Museu de Idanha.


Não sendo esse o propósito desta breve intervenção, devo exprimir o meu apoio à ideia de destacar, através de pintura da cavidade de incisão dos caracteres, o texto. Nem compreendo que critério pressupostamente fundamentalista o impediria. Acrescentaria que na época da sua execução as cavidades incisas correspondentes aos caracteres deviam ser, em muitos dos casos, preenchidas com betume, colorido com pigmentos, metodologia a que se recorreria nos séculos XVI, XVII e XVIII. Mas esta é outra questão para outra oportunidade.


Porque a matéria extravagou para outra, a da supressão do Museu Nacional de Arqueologia. Cerca de um mês após se saber que o seu actual Director fora reconduzido no cargo. Pelo que o assunto parece assumir duas vertentes.


Uma, política e circunstancial, relaciona-se, do meu ponto de vista, com efemeridades políticas. Seja: uma vez reconduzido no cargo um dos mais acérrimos opositores à desinstalação do Museu da sua actual sede, sem um consistente programa de reinstalação, pois então suprima-se, fica o assunto arrumado, com os espólios empacotados na Cordoaria, à espera que os museus regionais e locais, na maioria moribundos, os possam realojar.


Outra vertente entronca numa doutrina muito antiga, que reflecte sobre a oportunidade e o sentido dos museus nacionais.


E esta questão, sim, tem toda a legitimidade, como proposta de reflexão capaz de produzir novas doutrinas e práticas no domínio da museologia e da gestão dos equipamentos museológicos.


Pretendo contribuir de forma estruturada para o desenvolvimento do tema. E fá-lo-ei estruturado por dois tópicos:


A reinstalação do Museu Nacional de Arqueologia não pressupõe necessariamente a alienação do espaço de referência onde permanece instalado desde 1906, aberto ao público, desde 1900, afectação do edifício. Pressupõe a afectação de novas instalações operacionais que lhe permitam desempenhar e reforçar o seu papel.


O Museu Nacional de Arqueologia não vale pelos espólios que alberga. Vale como instituição, como referência indelével e axial na História da Arqueologia em Portugal. Como já o afirmei, é património cultural material e imaterial. Como símbolo e insígnia, a ocupação do seu domínio no Mosteiro dos Jerónimos deve ser considerado património imaterial da História da Arqueologia em Portugal.


Que o Museu Nacional de Arqueologia não devia ser o único e singular repositório não só de espólios materiais, mas também de referências imateriais, está subjacente a um processo de diligências e medidas concretas que se consubstanciam entre os anos de 1971 e 2001.


O Museu Nacional de Arqueologia não é necessariamente um agressor dos anseios de uma consistente musealização de proximidade, que refira a cultura arqueológica aos seus tópicos de referência e procedência. Só o reforço programado e consistente da rede nacional de museus permitirá, no futuro, redefinir o papel insubstituível do Museu Nacional de Arqueologia.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Quem manda calar quem?

Quem manda calar quem?




Ontem de manhã, 4 de Outubro, poucos minutos após fazer um breve comentário sobre o programa RADIO-PAST do Professor Frank Vermeulen, CIDEUHS, EU, em archport,, recebi no meu mail uma mensagem, de resto similar a tantas outras, mais insultuosas e por vezes ameaçadoras, expedida por um anónimo.


Resolvi endereçá-la para archport, para que os demais participantes do fórum pudessem ajuizar sobre a disparatada interpretação, do meu ponto de vista, que alguns fazem do papel e âmbito do fórum. Arriscar-me-ia, como é óbvio, a que a comunidade em uníssono me mandasse calar.


Bem, mas enquanto não me mandarem calar, eu não me calo. Quem me pode mandar calar é a Administração de archport, cancelando a minha inscrição. E não fará mais do que usar das suas prerrogativas.


Mas fiquei a interrogar-me. Quem manda calar quem? E por que razão tanta gente me interpela para que me cale?


Revi então a minha lista de intervenções em archport, comparando-as com a maioria das restantes. E não enxergo razão para que me mandem calar. A quem estarei a incomodar?


A única razão apontada, até agora, é a de que eu redijo em muito bom Português. E tal incomoda aos que não o compreendem.


Eu não acho que redija em tão bom Português. Mas seria aprovado se passasse a redigir em Chinês? Ou Inglês, simplesmente? Não. Passariam então a reclamar que redigia em mau Inglês.


Mas talvez o argumento seja simulado. Quem poderia ficar tão incomodado com a divulgação da novidade de que, entre nós, já existem equipamentos e dispositivos da mais avançada operacionalidade para proceder a uma exaustiva avaliação não intrusiva do potencial arqueológico de um local? Ou com outras matérias?


Vai-me dando ânimo o facto de o número daqueles que me vão interpelando para que continue, exceder largamente o dos que me mandam calar.


A não ser que alguns tenham vontade e fiquem calados.


Sou um velho republicano democrata. Se a maioria me mandar explicitamente calar em archport eu vou apregoar para o Rossio. E aí sim, posso falar em Português, Chinês ou Inglês, porque ninguém me ouve, passarão todos com muita pressa.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Claude Levy-Strauss

Claude Levy-Strauss



Um dos meus irmãos licenciou-se em Antropologia na FCH da UNL. Costumava e costuma contar um episódio agora oportuno.


Um belo dia um dos seus professores, iniciou a primeira aula da manhã com um comentário esfuziante.


- Caros amigos, durante a última semana estive a ler um livro que vos recomendo vivamente. Li em Francês, o título em Português será…, deixa cá ver Alfredo… deixa cá ver Alfredo… Tristes Trópicos. Notável. E o autor é um antropólogo pouco divulgado, Claude Levy-Strauss. Atenção, não é o das valsas.


Os alunos, atónitos com o inesperado, olhavam uns para os outros para perceberem quem iria replicar. Ninguém o fez.


E durante o intervalo seguinte a única interrogação que se colocavam uns aos outros era:


- Será que ele está mesmo certo de que não é o das valsas?


Resta assinalar que estávamos em 1980 ou 81.


Tenho a certeza de que o excelso professor, surpreendido ontem pela notícia do seu falecimento, estará a pensar:


- Já ouvi falar deste sujeito…

sábado, 24 de Outubro de 2009

Provedor do Património

Um Provedor para o património cultural




Desde aqui, do nosso tópico de observadores, por vezes atónitos, do que vai ocorrendo no domínio dos conflitos entre interesses e pontos de vista, no que respeita a uma sensata e consensual política de promoção, valorização e preservação do património cultural, não podemos deixar de fazer o registo de que, no contexto do agravamento de uma crise estrutural de valores, não só financeiros e materiais, cada vez se torna mais urgente uma intervenção arbitral, de bom espírito e boa fé, capaz de intervir no sentido de mitigar as conflituosidades crescentes entre múltiplos intervenientes públicos e privados, institucionalmente tutelares ou dimanados da livre associação de múltiplos segmentos da dita sociedade civil.


À guerra, ninguém vai resolver nada. E necessitamos cada vez mais de uma intervenção benfazeja, consensualmente legitimada, credenciada para intervir nas matérias em relação às quais nem as instituições tutelares, nem as transmissoras do ponto de vista da legítima vontade de a comunidade intervir conseguem encontrar convergência.


A figura de um Provedor, supra-partidário, supra-político e supra-institucional, mas investido num papel consensualmente reconhecido, faz hoje todo o sentido.


Abordo aqui exclusivamente o domínio do património cultural material. Espero que outros se manifestem sobre o imaterial.


À atenção da recém-nomeada Ministra da Cultura e de todos as entidades e cidadãos envolvidos na defesa, valorização e promoção do património cultural.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Novas práticas de salvaguarda do património arqueológico

João Paulo Pereira, sobre Novas práticas de salvaguarda do património arqueológico.


Não querendo subestimar a utilidade de tal tecnologia, que permite uma observação do terreno sem intrusões, gostaria de reflectir sobre o contexto em que se deveria ou poderia utilizá-la.
Muito antes de se chegar ao momento de olhar para as máquinas de construção de um projecto actual, seja estrada ou um polígono fabril, para ver se aparece ou não qualquer coisa a que se possa chamar de vestígio arqueológico, poderemos reconstruir um percurso metodológico, que para alguns de nós, pode não der novidade nenhuma. Também não tenho a intenção nenhuma de mostrar qualquer novidade.
Quando nasce uma ideia de projecto actual, salta logo a pergunta ao projectista ou ao idealista: Que projecto quero eu fazer? Onde vou fazer este projecto? Que problemas posso eu encontrar para o fazer?
A interacção entre um projecto e o local da sua realização começa desde cedo.
O levantamento daquilo que existe no local do projecto a realizar é uma das tarefas mais árduas e longas para a gestão desse mesmo projecto, exigindo um esforço financeiro e de recursos humanos bastante forte. Entre as várias equipas, as de arqueologia e ou as de património cultural são as que mais sobressaem ao que me traz aqui.
Depois de definir, em geral, mais do que um local de estudo para um projecto actual, as equipas terão um ponto de partida para realizar:


• Levantamento bibliográfico,


• Levantamento cartográfico (topografia, toponímias, simbologia cartográfica, etc.)


• Levantamento nas bases de dados existentes,


• Levantamento de campo, vulgo prospecção arqueológica terrestre e em alguns casos, subaquática.


É neste último ponto, que a prospecção remota pode, e pelos vistos, deve, entrar como um dos meios para aumentar a eficácia dos levantamentos arqueológicos. Dependendo dos custos operacionais, que ignoro completamente, terão de ser escolhidas estratégias adequadas para aproveitar ao máximo esta mesma tecnologia. Estas estratégias poderão passar pela selecção de pontos e ou transeptos dentro da área do projecto.
No entanto, é de salientar a importância de a equipa de arqueologia se relacionar com as restantes equipas de projecto, de modo a que seja possível uma adequação eficaz entre a forma (geométrica) e localização do projecto e a realidade dos vestígios arqueológicos conhecidos e os que vão sendo conhecidos ao longo das várias etapas dos vários levantamentos arqueológicos.
O ideal será a criação de um projecto actual que não interfira com vestígios arqueológicos.
Definida a forma e a localização do projecto e logo antes do início desse mesmo projecto, podem iniciar-se diversos trabalhos arqueológicos de acompanhamento e ou mesmo de prevenção do risco de afectação dos valores patrimoniais.
Reconhecidos alguns dos pontos críticos do projecto actual poderão ser usadas várias técnicas de observação do solo a afectar por esse mesmo projecto. Mais uma vez, entre a prospecção terrestre (simples, a pé) e subaquática (se for caso disso), sondagens arqueológicas clássicas, também a detecção remota poderá ter um papel a desempenhar na referida prevenção, agora e naturalmente mais tardia, de vestígios arqueológicos.
É claro que existe um certo grau de imprevisibilidade quanto ao desenrolar dos trabalhos arqueológicos relacionados com um projecto actual desde o seu início. É aqui (e noutros aspectos que agora não interessa desenvolver) que o PNTA terá de ter características diferenciadas do PNTA de investigação clássica e também nos termos actuais em que se solicita autorização para trabalhos arqueológicos no âmbito das acções de prevenção (o grupo C do formulário do IGESPAR).

João Paulo Pereira

domingo, 18 de Outubro de 2009

Novas Práticas de Salvaguarda do Património Arqueológico

Novas práticas de salvaguarda do património arqueológico







A aplicação prévia de meios de prospecção remota em trabalhos de EIA e acompanhamento de obra.



Os meus primeiros contactos com a exploração consequente da potencialidade dos meios de detecção remota na prática da prospecção arqueológica remontam a 1985, no âmbito de um projecto transdisciplinar integrado, reunindo os departamentos de Ecologia (Arquitectura Paisagística e Engenharia Biofísica) e História da Universidade de Évora.

Não escavei senão na minha juventude. A prospecção arqueológica e a compreensão integrada das relações mais consistentes do homem com o território, nomeadamente a história dos itinerários viários e a sua relação com o povoamento, tornaram-se desde muito cedo o tópico da minha investigação arqueológica.

No tempo a que estou a remontar, os utensílios mais eficazes eram ainda a observação estereoscópica das fotografias aéreas dos voos USAF que serviram de suporte à elaboração à Carta Militar de Portugal. Começaram então a estar disponíveis, através de encomendas circunstanciais, registos de imagem mais elaborados realizados a partir de satélite com um ainda exíguo espectro de radiações, nomeadamente infra-vermelhos.

É talvez de particular interesse registar que, tal como agora, a produção dos meios remotos aplicados à arqueologia tinham origem no desenvolvimento da tecnologia militar. Neste tempo, o mero acesso a uma fotografia aérea militar obedecia a requisitos rigorosos de autorização.

Esta complexa burocracia, aliada ao elevado preço das cartas e fotografias, exigia um trabalho preliminar de investigação documental, no domínio arquivístico, toponímico, etc., que justificasse a prospecção detalhada de áreas específicas. O contexto gratificante do projecto de trabalho em que nos inseríamos era, precisamente, caracterizado pela facilidade de utilizarmos suportes requeridos para um amplo espectro disciplinar de investigação regional, cruzando os materiais requeridos para múltiplos fins.

No domínio arquivístico, a manipulação dos meios de detecção remota era suportada por exaustivos dados centrados em levantamentos cadastrais, medievais, modernos e contemporâneos, depois confirmados nas suas marcas indeléveis na paisagem.

O regime de trabalho era todavia ainda artesanal, a investigação decorria nos escassos intervalos de uma agenda lectiva e de gestão de conflituosidades, tão profundamente enquistada no meio académico, que transformavam a investigação num hobby.

Bem, isto passava-se há cerca de vinte e cinco anos.

Mas o mínimo que poderia alegar, já nesse tempo, era que estes escassos meios poderiam permitir o varrimento prévio de uma dada área onde se projectasse uma intervenção intrusiva sobre o território, de forma a identificar com alguma operacionalidade as estruturas que pudessem vir a ser afectadas. Os maiores cataclismos recenseados associavam-se na altura aos grandes empreendimentos de florestação, nomeadamente plantação de eucaliptais, que proliferavam por todo o Alentejo central.

Só posteriormente surgiriam os episódios dos empreendimentos rodoviários e hidráulicos.

Entretanto, desde os inícios da década de noventa começa a consolidar-se uma nova área transdisciplinar em apoio à investigação arqueológica, reunindo a melhoria de múltiplos domínios, a Arqueometria, incidindo sobre o estudo aprofundado de artefactos, desde a datação à sua composição material e procedimentos de confecção, o estudo consistente de materiais biológicos, restos humanos, fauna e flora associada aos locais de povoamento, enfim uma infinidade de recursos de trabalho. E, no mesmo âmbito, desenvolvem-se novas perspectivas de prospecção remota, multiplicando meios e dispositivos de elevada sofisticação, que envolvem já a tomografia.

Talvez, depois das imagens com origem em satélites, com radiações e filtros específicos, a metodologia que gerou os primeiros resultados consistentes foi a da utilização de matrizes pré-concebidas com base nos denominados crop circles, que ainda recentemente resultou em descobertas significativas associadas a Stonehenge. Mas desde a década de noventa do Século passado que as tecnologias se vão desenvolvendo em ritmo consequente, com recurso à avaliação de várias metodologias.

Embora programemos para breve uma avaliação circunstanciada dos diversos dispositivos e metodologias disponíveis, um bom guia para uma avaliação preliminar da complexidade dos recursos disponíveis será o arquivo digital de Department of Archaeological Sciences, University of Bradford.

http://www.brad.ac.uk/acad/archsci/subject/archpros/archp_nf.php

Recentemente Júlia McMurrow, do Departamento de Geografia e Arqueologia da Universidade de Manchester, editou a revisão de um clássico de 1990, Archaeologial Prospecting and Remote Sensing, de I. Scollar, A. Tabbagh, A. Hesse e I. Hertzog, Cambridge UP, em A review in (…), International Journal of Remote Sensing, Volume 30, 2009, Taylor and Francis. On line:

http://www.informaworld.com/smpp/title~content=t713722504~link=cover

Como é óbvio, todavia, a prospecção remota depara-se com sérias limitações em contexto urbano, determinando o recurso a dispositivos e metodologias muito complexas, e a metodologia de mais acessível acesso continua a ser a tradicional prospecção geofísica, através da extracção de amostras estratigráficas com a utilização de brocas cranianas de longo alcance, cuja utilização foi concebida pela indústria mineira. Dados todavia surpreendentes foram divulgados recentemente no âmbito da aplicação em Roma do Programa PORTUS (archport, Alexandre Monteiro). Bem como o número IX, 8 de POMPEI. INSULA DEL CENTENARIO, I, Indagini Diagnostiche Geofisiche e Analisi Archeometriche, coordenação de Sara Santoro.

Mas verdadeiramente surpreendentes são os resultados que podem ser obtidos através da utilização de utensílios tão triviais como uma habilidosa utilização de Google Earth ou Visual Earth. Neste domínio, entre nós, gostaríamos de sugerir o exemplo do grupo responsável pela Carta Arqueológica do Concelho de Évora, envolvendo de resto um precursor na optimização destes recursos, Manuel Calado. Com ele fiz os primeiros aterradores voos em ultra-leve, na pré-história da prospecção remota.

Ora, vem isto ao caso da matéria em que venho recalcitrando. O acompanhamento de obra deve iniciar-se antes do seu início e em sede de projecto, com recurso aos dispositivos de prospecção não intrusiva que cada vez mais estarão ao nosso alcance. Um Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos não pode deixar de contemplar a aquisição progressiva, por parte de instituições privadas e públicas, dos dispositivos necessários a uma eficaz prática de diagnóstico remoto, mesmo em regime de partilha programada.

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos. Comentários de João Paulo Pereira.

Comentários de João Paulo Pereira a Comentando o papel de um Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos.

A verde e em itálico

Eis então a minha opinião acerca do que poderia ser um Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos que pudesse contribuir para que a Arqueologia se tornasse uma actividade estruturalmente sustentável, sem violar os princípios éticos e deontológicos tidos como pressupostos na relação com o património cultural.
Não posso deixar contudo de introduzir alguns comentários preliminares breves.
A Arqueologia é, em princípio, um domínio do conhecimento e da investigação. O seu domínio de intervenção estende-se, no âmbito da aplicação prática das suas aquisições, a várias áreas associadas à preservação, valorização e recuperação do património cultural. Esse domínio de aplicação contribui depois, ele próprio, para a aquisição de aprofundamento de novos dados disponíveis para o enriquecimento do conhecimento disciplinar.
O que seria verdadeiramente paradoxal seria que os critérios das boas práticas de salvaguarda e preservação se subvertessem em consequência da ânsia de aquisição de dados cumulativos que suportassem acréscimos também cumulativos no panorama do conhecimento disciplinar. É no imbricado deste nó górdio, que as mais complexas questões devem ser colocadas. Ainda aparecerá um Alexandre para o desmembrar a fio de espada…
Seja, se não existir um programa de investigação arqueológica estruturado, contemplando as várias áreas, cronológicas, tópicas, territoriais, que determine estratégias de investigação e intervenção, as intervenções conjunturais e emergentes tornar-se-ão na fonte predominante do conhecimento arqueológico. Seja, a investigação só avança na medida em que forem surgindo situações de emergência no domínio da salvaguarda e preservação. A Arqueologia fica cativa do súbito emergir da circunstância, tornou-se uma prática de acontecimento fortuito.

Será necessário evidenciar dois tipos de cativação a que te referes: uma, relacionada com os achamentos fortuitos oriundos da demanda dos trabalhos de prospecção arqueológica no âmbito dos Estudos de Impacte Ambiental, os quais estão sujeitos a uma lógica que em nada está relacionada com uma investigação arqueológica científica; outra, relacionada com alguma aleatoriedade existente na investigação em curso no âmbito dos projectos organizados por universidades, associações, “campos arqueológicos” e afins, os quais, sem querer tirar o seu mérito, estão sujeitos a lógicas de investigação relacionadas com âmbitos locais, âmbitos de gosto pessoal de cada investigador, âmbitos relacionados com tradições de investigação (por exemplo: Coimbra – Romano). Este sector carece de uma organização na investigação arqueológica que se faz. Esta afirmação pode ser falsa por eventual desconhecimento do facto de os investigadores universitários e os outros se reúnam ou não para programar a investigação nacional.
Esta questão doutrinária dar-nos-ia ocasião para um tratado. E poder-se-ia alegar que a medicina só evolui porque existem doentes e prática clínica. E esta é de facto uma questão estrutural que aproxima epistemologicamente a medicina da arqueologia. E da física, ou da química, quando também o seu avanço é determinado pelas necessidades de inovação da tecnologia de guerra.
Alguém teria paciência para ponderar estas questões? Duvido. Porque formámos gerações de arqueólogos a quem transmitimos a ideia de que arqueologia é escavar, portanto aproveitem-se todas as ocasiões para escavar, seja onde for e a que propósito, porque se não houver escavações não há investigação arqueológica, nem, saliente-se, enquadramento profissional para os arqueólogos.

Esta falta de paciência também estará relacionada com o estado actual da mentalidade / ideologia cada vez mais espalhada e contagiada pelo verbo ter com base no adjectivo depressa.
E os materiais exumados amontoam-se sem destino e com registos sumários, talvez venham a ocupar algumas gerações no futuro. E as estruturas intervencionadas até podem ser arrasadas após a escavação, ou de novo soterradas em condições de protecção sumária, porque a mais eficaz protecção era exactamente a sua jazida natural. Ou ficarem a céu aberto disponíveis para visita e à espera de nova ruína, porque não há dinheiro nem recursos para manutenção, nem sequer para acompanhamento permanente.
Bem, não é oportuno para já abordar as questões relacionadas com as irregularidades que no domínio da intervenção empresarial se têm cometido, quer no âmbito de negociações com dono obra no sentido de não perturbar o curso normal de empreitadas, quer no descaminho de materiais exumados. E tais práticas legitimam-se muitas vezes no domínio da estratégia de sustentabilidade de empresas que não erm previsivelmente sustentáveis, ou porque não nasceram com vocação empresarial, ou porque a vocação empresarial pressupunha a erradicação dos limites impostos pela deontologia. Talvez nem valha a pena desenvolver a questão, senão reestruturar os enquadramentos que corrijam essa matéria. Seria uma forma de ponderar essa questão, que não pode deixar de ser ponderada.
Retomando então o tema do PNTA, a questão prévia que continua sem orientação operacional é a própria definição de trabalho arqueológico e das suas múltiplas categorias. Sem tal orientação não é possível congeminar um PNTA que remeta para contextos específicos e com enquadramentos diferenciados as múltiplas tipologias de trabalhos arqueológicos e qual o seu âmbito.
Um PNTA tem que equacionar a sua sustentabilidade de vários pontos de vista. Do ponto de vista financeiro, como se aprovisiona e como se suporta e pode contribuir para gerar riqueza, usando um tópico corrente trivial. Do ponto de vista comunitário de que forma contribui para a consolidação do tecido comunitário, para a sua valorização, para o seu bem estar, para o reforço dos vínculos solidários do reconhecimento da sua identidade. De que forma pode contribuir para resolver um problema crucial para a sociedade, seja, o reequilíbrio territorial, o desenvolvimento regional.
O ponto de vista do conhecimento disciplinar, das suas prioridades e orientações estratégicas e o equilíbrio entre todos os segmentos da investigação. A esta questão associa-se a da reprodução do saber, seja a do ensino e da estrutura académica.
Sem equacionar e ponderar a posição relativa d todas estas questões, um PNTA será sempre um Plano coxo e precário, apto a gerar mais guerras do que consensos e ameaçado pela iminência de que um acontecimento imponderável, como seja o empolamento de uma descoberta que impõe a imediata intervenção intrusiva, com a consequente mobilização de recursos e subversão de estabilidades programadas, o venha desmantelar.

O PNTA para deixar de ser coxo tem de ter a participação dos interessados de forma directa, ou seja, o sistema regulador (Estado), os investigadores universitários, os particulares e os inseridos noutros esquemas formais (associações, campos arqueológicos, câmaras municipais, empresas e particulares).
Um PNTA consequente, do meu ponto de vista, só será viável no contexto de um quadro regulador da actividade empresarial.
Não é suficiente. A investigação particular e a universitária também precisa de regulação.
Seja necessitaria de uma APA, ou qualquer outra ordem ou estrutura de associação profissional, sólida e de uma associação empresarial reguladora.
Seja, um PNTA colocar-se-ia a juzante de muitas outras medidas de enquadramento. Senão tornar-se-á no contexto de enquadramento dos múltiplos Planos Pessoais de Trabalhos Arqueológicos centrados no seu próprio umbigo.

Isso é o que existe. Não creio que uma ordem ponha ordem nisso. Só acredito na vontade das pessoas devidamente demonstrada nas suas decisões e actos. De uma vez por todas, os vários grupos têm de se sentar à mesma mesa para falar e decidir sobre isto: o que fazer com as várias investigações arqueológicas.
Numa próxima, desenvolverei o tema dos dispositivos tecnológicos disponíveis para que os EIA se possam tornar cada vez menos necessariamente intrusivos, de metodologias de preservação e salvaguarda alternativas e da reabilitação e requalificação do parque arqueológico. E da forma como novas perspectivas sobre a matéria s podem enquadrar num PNTA sustentável e consistente.
Tendo em conta que um PNTA deve ser um instrumento de reforço da solidariedade e partilha comunitária.


Nem mais. Será necessário que as pessoas envolvidas sintam isso como natural.

A investigação arqueológica organizada num PNTA deverá ter as seguintes alterações em relação ao que acontece hoje em dia:

- aumentar o âmbito temporal. 5 – 10 anos.
- aumentar a democraticidade e transparência da sua construção através da participação dos vários grupos interessados: regulação, universidades, associações e campos arqueológicos, empresas e particulares. Para eliminar aquela soma de pedidos anuais sobre a qual um pequeno grupo restrito e eventualmente permeável e pressões, decida quem vai ou não fazer o que seja.
- criar grupos diferentes de PNTA, embora possam e devam estar interligados:
PNTA para projectos e trabalhos de investigação arqueológica científica / tradicional;
PNTA para emergências, consubstanciada na existência de equipas multidisciplinares para atender a estes casos e também para a realização de trabalhos ditos de prevenção no âmbito dos EIA’s;
PNTA direccionada para a protecção, salvaguarda e valorização dos sítios e saberes;
PNTA direccionado para o estudo dos materiais já exumados existentes nos” armazéns” dos museus.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos

Comentando o papel de um Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos
Caro Amigo.

Eis então a minha opinião acerca do que poderia ser um Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos que pudesse contribuir para que a Arqueologia se tornasse uma actividade estruturalmente sustentável, sem violar os princípios éticos e deontológicos tidos como pressupostos para a relação com o património cultural.
Não posso deixar contudo de introduzir alguns comentários preliminares breves.
A Arqueologia é, em princípio, um domínio do conhecimento e da investigação. O seu domínio de intervenção estende-se, no âmbito da aplicação prática das suas aquisições, a várias áreas associadas à preservação, valorização e recuperação do património cultural. Esse domínio de aplicação contribui depois, ele próprio, para a aquisição e aprofundamento de novos dados disponíveis para o enriquecimento do conhecimento disciplinar.
Verdadeiramente paradoxal seria que os critérios das boas práticas de salvaguarda e preservação se subvertessem em consequência da ânsia de aquisição de dados cumulativos que suportassem acréscimos, também cumulativos, no panorama do conhecimento disciplinar. É no imbricado deste nó górdio que as mais complexas questões devem ser colocadas. Ainda aparecerá um Alexandre para o desmembrar a fio de espada…
Seja, se não existir um programa de investigação arqueológica estruturado, contemplando as várias áreas, cronológicas, tópicas, territoriais, que determine estratégias de investigação e intervenção, as intervenções conjunturais e emergentes tornar-se-ão na fonte predominante do conhecimento arqueológico. Seja, a investigação só avança na medida em que forem surgindo situações de emergência no domínio da salvaguarda e preservação. A Arqueologia fica cativa do súbito emergir da circunstância, tornou-se uma prática de acontecimento fortuito.
Esta questão doutrinária dar-nos-ia ocasião para um tratado. E poder-se-ia alegar que a medicina só evolui porque existem doentes e prática clínica. E esta é de facto uma questão estrutural que aproxima epistemologicamente a medicina da arqueologia. E da física, ou da química, quando também o seu avanço é determinado pelas necessidades de inovação da tecnologia de guerra.
Alguém teria paciência para ponderar estas questões? Duvido. Porque formámos gerações de arqueólogos a quem transmitimos a ideia de que arqueologia é escavar, portanto aproveitem-se todas as ocasiões para escavar, seja onde for e a que propósito, porque se não houver escavações não há investigação arqueológica, nem, saliente-se, enquadramento profissional para os arqueólogos.
E os materiais exumados amontoam-se sem destino e com registos sumários, talvez venham a ocupar algumas gerações no futuro. E as estruturas intervencionadas até podem ser arrasadas após a escavação, ou de novo soterradas em condições de protecção sumária, porque a mais eficaz protecção era exactamente a sua jazida natural. Ou ficarem a céu aberto disponíveis para visita e à espera de nova ruína, porque não há dinheiro nem recursos para manutenção, nem sequer para acompanhamento permanente.
Bem, não é oportuno para já abordar as questões relacionadas com as irregularidades que no domínio da intervenção empresarial se têm cometido, quer no âmbito de negociações com dono obra no sentido de não perturbar o curso normal de empreitadas, quer no descaminho de materiais exumados. E tais práticas legitimam-se muitas vezes no domínio da estratégia de sustentabilidade de empresas que não eram previsivelmente sustentáveis, ou porque não nasceram com vocação empresarial, ou porque a vocação empresarial pressupunha a erradicação dos limites impostos pela deontologia. Talvez nem valha a pena desenvolver a questão, senão reestruturar os enquadramentos que corrijam essa matéria. Seria uma forma de ponderar o assunto, que não pode deixar de ser ponderado.
Retomando então o tema do PNTA, a questão prévia que continua sem orientação operacional é a própria definição de trabalho arqueológico e das suas múltiplas categorias. Sem tal orientação não é possível congeminar um PNTA que remeta para contextos específicos e com enquadramentos diferenciados as múltiplas tipologias de trabalhos arqueológicos e qual o seu âmbito.
Um PNTA tem que equacionar a sua sustentabilidade de vários pontos de vista. Do ponto de vista financeiro, como se aprovisiona e como se suporta e pode contribuir para gerar riqueza, usando um tópico corrente trivial. Do ponto de vista comunitário, de que forma contribui para a consolidação do tecido comunitário, para a sua valorização, para o seu bem estar, para o reforço dos vínculos solidários do reconhecimento da sua identidade. De que forma pode contribuir para resolver um problema crucial para a sociedade, seja, o reequilíbrio territorial, o desenvolvimento regional. O ponto de vista do conhecimento disciplinar, das suas prioridades e orientações estratégicas e o equilíbrio entre todos os segmentos da investigação. A esta questão associa-se a da reprodução do saber, seja a do ensino e da estrutura académica.
Sem equacionar e ponderar a posição relativa de todas estas questões, um PNTA será sempre um Plano coxo e precário, apto a gerar mais guerras do que consensos e ameaçado pela iminência de que um acontecimento imponderável, como seja o empolamento de uma descoberta que impõe a imediata intervenção intrusiva, com a consequente mobilização de recursos e subversão de estabilidades programadas, o venha desmantelar.
Um PNTA consequente, do meu ponto de vista, só será viável no contexto de um quadro regulador da actividade empresarial. Seja, necessitaria de uma APA, ou qualquer outra ordem ou estrutura de associação profissional, sólida e de uma associação empresarial reguladora.
Seja, um PNTA colocar-se-ia a jusante de muitas outras medidas de enquadramento. Senão tornar-se-á no contexto de enquadramento dos múltiplos Planos Pessoais de Trabalhos Arqueológicos centrados no seu próprio umbigo.
Numa próxima, desenvolverei o tema dos dispositivos tecnológicos disponíveis para que os EIA se possam tornar cada vez menos necessariamente intrusivos, de metodologias de preservação e salvaguarda alternativas e da reabilitação e requalificação do parque arqueológico. E da forma como novas perspectivas sobre a matéria se podem enquadrar num PNTA sustentável e consistente.
Tem do em conta que um PNTA deve ser um instrumento de reforço da solidariedade e partilha comunitária.

Abraço.

Manuel

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Um discurso sobre o ignoto

Viriato, a Lusitânia e os romanos.
Um discurso sobre o ignoto.
Há uns anos, um amigo meu propôs-me que escrevesse um livro sobre os lusitanos e Viriato. Debatemos longamente a ideia e respondi-lhe que não sabia como o fazer sem entrar por itinerários recalcitrantes a que não se apresentava destino. Foi muito difícil transmitir-lhe que, para mim, os temas concernentes aos lusitanos e a Viriato não podiam ser abordados senão no domínio da hermenêutica do discurso historiográfico e da epopeia e da análise do contexto da construção de um mito e das suas sucessivas recodificações.
Mas resolvi escrever o livro. Entretanto, outras obrigações e devoções obrigaram-me a suspendê-lo. Ficou confinado a uma introdução e um programa.
Paralelamente a esse programa, corria outro, também suspenso, que tentava delinear uma nova metodologia na abordagem às fontes documentais que transferiam, sucessivamente e ao longo de várias eras, para o contexto do reordenamento do território tópicos estruturantes do que a análise da informação arqueologia já fazia supor para a relação do homem com o território desde, pelo menos, a época romana. Limina restituta. As demarcações medievais e a história do território. Território, partilha, cadastro, ordenamento e tráfego. Projecto.
Ainda bem. Era empresa ciclópica, para a qual concluí que deveria mobilizar uma pequena equipe.
Aqui fica o desafio.
http//sites.google.com/site/elmanodargus/

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Quem já viu um fresco como este?


Os fóruns archport e histport foram durante o dia 18 de Agosto inesperadamente sede de um frenesi, porque uma arqueóloga solicitou, no seguimento de um trabalho de acompanhamento arqueológico, informação sobre umas pinturas parietais a fresco liminarmente triviais. Trata-se da Igreja Matriz de Pederneira e os frescos já tinham sido identificados e alvos de registo desde 2007, de acordo com a informação exaustiva divulgada por Carlos Fidalgo.
Será que a arqueóloga Sandra Caçador existe mesmo e está a acompanhar trabalhos arqueológicos, na Igreja Matriz de Pederneira?
A continuar assim a coisa, só nos resta esperar para ver aonde vai parar.
Que os arqueólogos estavam a derrapar centrifugamente para fora do âmbito da História e mesmo da cultura já era visível. Tanto, todavia, fica mal.

quinta-feira, 13 de Agosto de 2009

Orientação para uma intervenção epistemológica

Arqueologia
Desconstruir para construir. Uma autópsia.




Prólogo


Perdoem-me que, previamente, retome aqui um tema recalcitrante em todas as minhas cogitações epistemológicas, quando abordo o tema do paradigma da modernidade no itinerário do conhecimento humano. Tendo como certo que a minha mira está orientada para a história e, no seu âmbito, a arqueologia. A arqueologia, para mim, não consegue evadir-se do âmbito da história, por mais que o conhecimento se vá fragmentando e as suas regiões, ou nações, anseiem pela autonomia.(1)
E retomo então a medicina. Consciente de que a retomo agora num novo e mais lúcido patamar, porque superei aquele de que partira, cerca de vinte anos atrás.
Porque nesse primeiro patamar conseguira meramente operar o registo de que a disputa entre a medicina e a cirurgia, quer como disciplinas, quer como ordens corporativas, configurava, como metáfora, o nó axial dos contenciosos envolventes da ruptura da modernidade, que residia na autonomia e antinomia de dois patamares da laboração do conhecimento, a teoria e a prática. E que a prática passara a incorporar o domínio do juízo sobre a legitimidade dos procedimentos que suportavam a progressão no itinerário do conhecimento. A medicina tornara-se metaforicamente no paradigma do experimentalismo, na sua matriz.(2)
A recalcitrante disputa entre a modernidade e a tradição cristalizou, durante mais de três séculos, na disputa entre médicos e cirurgiões e entre estes e os oficiais tradicionais das práticas operativas, sangradores, barbeiros, meios-cirurgiões, etc.
Sucessivamente, a medicina, que soçobrava face ao assédio das práticas operativas e da cirurgia, transformava-se numa prática predominantemente intrusiva. O próprio aprofundamento do conhecimento experimental propedêutico do organismo humano, da sua fábrica, aglutinava-se agora em torno da anatomia. E os anatomistas balbuciavam com crescente insistência o seu anseio de passar da dissecação do organismo morto à do organismo vivo. E o culminar dessa insistência fora sugerido pelo próprio Vesalio ao insinuar a prática da vivissecação do cérebro.(3)
E é desta metáfora e da sua derradeira compreensão que posso passar para o patamar superior da manipulação da gesta medicinae, para interrogar as cruciais questões a que, superados todos os ismos, a epistemologia tem que responder.
E é por isso que o meu ponto de partida não é mais um pós ismo qualquer, é ante. Nem pós-moderno, nem pós-estruturalista, nem pós-funcionalista, nem pós-marxista. É ante adversusque mdernitatem. Seja, é a prospecção dos itinerários, ou dos trilhos, pelos quais a progressão do conhecimento poderia ter enveredado no ponto exacto da ruptura com a tradição. Que horizontes lhe estavam virtualmente abertos?(4)
E devo advertir que não se trata meramente de uma reflexão epistemológica, trata-se também de uma reflexão ética e deontológica. Porque propõe a reunião da epistemologia com a ética.
E os ismos existem e impuseram-se nas nossa relações com o conhecimento e os seus itinerários, na presunção de as distinguir, no tempo e na espécie, porque o próprio itinerário do conhecimento é uma epopeia. Um ismo é uma operação narrativa de distinção, do género epopaico, que pretende, meramente, aglutinar em torno de um tópico pressupostamente doutrinário uma sucessão, na maior parte das vezes aleatória, de episódios de reflexão. Ou de prática disciplinar.
E não posso deixar de propor desde já uma reflexão. A arqueologia iniciou o seu itinerário centrífugo em relação à história, em direcção à autonomia, assumindo-se como uma ciência auxiliar da história. Súbita e brevemente, a arqueologia não era já uma, mas múltiplas ciências auxiliares da história, cada uma assumindo um âmbito específico de autonomia. Mas não passou muito tempo até que a arqueologia tratasse a história como uma ciência, cada vez mais longínqua, auxiliar da arqueologia.
Ora, é esta uma das razões porque invoco a história da medicina como paradigma. Afinal, não foi mais do que isto que se passou, no dealbar da modernidade, no que concerne à relação da medicina com as suas disciplinas ou práticas adjuvantes. Não tardaria que a cirurgia olhasse com sobranceria a medicina, não como prática ou doutrina adjuvante, mas mesmo como território inibidor de vigilância ideológica.





Notas


1. Devo desde já chamar a atenção para que, tomando por tópico a desconstrução de um discurso disciplinar, a minha intervenção epistemológica visa a reconstrução de um discurso disciplinar aglutinante, que, depois de proceder à dissecação anatómica dos discursos fragmentados, procedendo a uma sócio-psicanálise profunda dos contextos históricos que lhe serviram de suporte, consiga propor uma orientação ética para toda a actividade do conhecimento. Ver nota 4.

2. Manuel d Castro Nunes, 1992, Évora, No limiar de uma história da medicina em Portugal. A “medicina popular”. Contribuições para a identificação de um género. Manuel de Castro Nunes, 1993, Évora, O Capuchinho Vermelho. Laudas para um projecto de trabalhos em História da Medicina e da Cultura Médica em Portugal.
http://demedicare.blogspot.com/

3. O tema da vivissecação do cérebro, que passa subtilmente em claro nas canónicas abordagens à obra de Vesalio e do seu significado, poderia por si, como alegoria ou metáfora, ser objecto de um tratado. Em última análise denuncia a alucinação pela ânsia de conhecimento radical do próprio sujeito do conhecimento, no presumido tópico da sua sede. É o primeiro intuito de auto psicanálise. E tal como em toda a obra de Vesalio nem se compreende se a sua anatomia pretende consagrar a harmonia da fábrica, ou as circunstâncias da ocorrência da sua patologia.
Quando invoco aqui a matéria como metáfora tenho em mira a vivissecação do processo de conhecimento, intrometendo-me sobretudo nas fracturas, ou fissuras, que consigo determinar entre a teoria, ou doutrina, e a prática.



4. Ao utilizarmos a expressão ponto exacto, poderia utilizar episódio ou episódios singulares, tenho a consciência de que estou a intrometer aqui outro tópico da epistemologia recente da história, adjacente ao estruturalismo, a relação entre a longa e a breve duração. Ora, esta foi a matéria a partir da qual congeminei as minhas primeiras abordagens à história da medicina e posso concluir que me evadi da falsa equação pela porta de trás. Porque o que concluo é que a longa duração não passava de uma representação, um mero modelo de observação da realidade, que não era senão a sucessão de episódios ocorrentes sem qualquer nexo. O nexo fora constituído pela narrativa e os seus motivos eram aleatórios, pois eram determinados por sucessivos estratos de episódios narrativos, depósitos de detritos cuja análise e compreensão não era já tangível. E iniciara-se no estrato de contemporaneidade do episódio e fora a primeira operação de aglutinação de um episódio com outro episódio. Afinal, a longa duração tinha ela própria uma história e operava com os utensílios que, sucessivamente, em sucessivas estratigrafias narrativas, restavam ao historiador como vestígio ou indício da realidade a que procurava aceder.
Ao longo desta abordagem, não poderei deixar de reformular este tema.
No que aos ismos respeita, é suficiente neste ponto anunciar que este texto integrará um capítulo específico que dissecará o processo histórico de sucessão de ismos que dissimulam a singularidade de uma intervenção e a sua contextualização na efemeridade do momento em que foi suscitada. Qualquer ismo, como metanarrativa que representa a aglutinação de um discurso em torno de uma corrente contínua, ou mais ou menos contínua de pensamento e discurso, torna-se ele próprio numa operação retórica de representação.

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

O que é e o que deve ser a APA

O que é e o que deve ser a APA

Há pouco mais de uma semana, interpelada em archport, a Presidente da APA revelou que a associação conta actualmente com 323 associados. É lamentável. Porque, em minha opinião, a APA, a única estrutura associativa dos profissionais arqueólogos em torno de documentos programáticos de referência eticamente irrepreensíveis, como adiante documentarei, deveria estar já a assumir um papel regulador da prática arqueológica que lhe tem sido vedado quer pela sua representatividade, quer pela sobranceria com que as entidades tutelares do Estado com ela se relacionam. De resto, o menosprezo que o Estado dispensa à APA, reflecte-se obviamente no fluxo de adesão. Provavelmente, nem pretendem as entidades tutelares outra coisa.
Para prosseguirmos este raciocínio importa-nos citar os resultados apresentados por Maria José de Almeida, 2007, Inquérito Nacional à Actividade Arqueológica (…), PRAXIS ARQUEOLÒGICA 2, referentes ao inquérito realizado no ano antecedente, 2006. Face ao reconhecimento da ausência de resposta por parte das empresas de arqueologia, Maria José de Almeida lamenta: Infelizmente, a fraca receptividade que o nosso inquérito teve junto das outras entidades que participam na promoção de actividade arqueológica impede-nos de ir mais longe e de apresentar uma imagem mais global do exercício da arqueologia. Continuamos sem saber ao certo quantos somos, como trabalhamos, com que recursos e instrumentos estamos a lidar com o nosso património arqueológico. As imagens que temos sobre o que é a arqueologia em Portugal são empíricas e fundadas em experiências pessoais inevitavelmente redutoras.
Este comentário referia um antecedente pressuposto: As respostas de empresas de arqueologia e de centros de investigação/associações apenas são significativas pela ausência.
Seja, o inquérito fica circunscrito aos dados fornecidos pelas respostas remetidas pelas autarquias, analisados por Maria José de Almeida no quadro de um modelo muito bem referenciado a questões cruciais. O universo empresarial continua a ser, em termos de avaliação possível, um buraco negro espacial, remotamente avaliável quantitativamente, Luís Raposo, 2005, Directório das Empresas (…), REVISTA ALMADAN, Nova Série, 13, que sobrevive no fundamental no quadro do aparato legal que determina a realização de EIA. O comentário que nos sugere este panorama é que as empresas de arqueologia, na maior parte da sua actividade, preparam as condições prévias de registo que antecedem a destruição de património arqueológico e constituem um universo cuja prática é inavaliável. São também inavialiáveis as condições em que exercem a sua actividade, os recursos técnicos e humanos que mobilizam ou de que têm necessidade e lhes faltam.
Devemos ainda realçar o facto de Maria José de Almeida poder concluir que, no âmbito da actividade arqueológica promovida pelas autarquias, a ratio entre as intervenções de salvaguarda e emergência e as de valorização de monumentos e sítios ser de 36% para 18%. A gestão e estudo de espólios consome 12% da actividade neste contexto, a mesma percentagem consumida pela investigação programada.
Não vou ainda abordar a questão levantada por Maria José de Almeida em relação a outra questão estrutural e estruturante, seja, a de saber se é mais adequada a inserção da prática arqueológica promovida pelas autarquias no enquadramento das estruturas de ordenamento territorial, se nas de gestão e promoção do património cultural.
Mas o que se pode deduzir é que a actividade arqueológica, de acordo com as preocupações que tenho vindo a manifestar, se configura predominantemente estruturada por factores exógenos conjunturais.
Ora, para prosseguir com outra questão, reproduzo aqui um excerto do Código Deontológico da APA, um instrumento ainda de referência ao papel regulador que à associação profissional deve ser atribuído.
Sublinha-se no entanto a particular responsabilidade deontológica do arqueólogo em relação à escavação, uma vez que o preço da recolha de informação é a inevitável perda de outra in­formação. Mesmo em intervenções de salvamento ou de natureza semelhante, o arqueólogo só deve escavar após cuidada reflexão, devendo considerar outros meios de investigação que precedam e possam complementar ou mesmo substituir a escavação. Ao projectar-se uma intervenção arqueológica que inclua escavação, deve também ser encarada a possibilidade de uma escavação não integral, prevendo-se zonas de reserva a definir previamente ou no decurso dos trabalhos.
O sublinhado é meu.
Está por fazer o diagnóstico do contingente de arqueólogos, nos vários patamares de competências e habilitações, formados durante os últimos vinte ou quinze anos, quer em contexto universitário, quer técnico-profissional. Mas o universo que se pode intuir não se confina com toda a certeza aos 323 associados da APA. É, em termos de avaliação, um universo tão nebuloso como o das empresas recenseadas e da sua caracterização. Tendo ainda em conta que muitos profissionais singulares se constituíram em empresas. E tendo ainda em conta que pode ocorrer, no quadro de um universo que não podemos recensear, que muitos arqueólogos singulares possam usar do estatuto ambíguo de profissionais e empresários ou quadros empresariais, participando na sua gestão e administração.
O que vou concluir para já é que o reforço da adesão à APA e o investimento num papel mais assertivo por parte da APA no cumprimento de um papel regulador mesmo dos critérios da definição da boa prática arqueológica se constitui no instrumento mais necessário e estrategicamente preliminar à reformulação de um modelo para a sustentabilidade da arqueologia.
E este apelo é dirigido a todos os profissionais arqueólogos, à Direcção da APA e às entidades tutelares do Estado. A bem da representação da arqueologia perante a comunidade.

sábado, 18 de Julho de 2009

Mistificações

Mistificações

A aritmética da razão entre arqueólogos a mais, empresas a menos. Vamos recrutar arqueólogos já prontinhos no Brasil.

Bem, disparate não seria. A Ministra da Educação já anunciou o recrutamento de médicos no Brasil e em Espanha, haverá um dia em que virão da Somália, quando as empresas integradas no sistema de saúde já não tiverem dinheiro para lhes pagar.
E início o tópico assim, na brincadeira, para me associar à tontice, não à loucura, a loucura é caso sério, com que o assunto vai sendo abordado em vários contextos. De disparate em disparate, de contradição em contradição, a coisa vai andando à estalada e sem árbitro.
Aparece um a dizer: Não há arqueólogos a mais. Quando as empresas querem arqueólogos, não os há. Anteriormente dissera: Fazendo contas, quando um arqueólogo quer trabalhar para uma empresa, tem que pagar. Tanto para o pão, o leite e a manteiga, tanto para a enxovia, tanto para a carripana que tem que colocar à disposição, saldo (– 100, 00 Euros).
Conclusão, minha, claro: Não há trabalho para tantos arqueólogos porque as empresas não querem ou não podem pagar. Seja, não há trabalho e pronto, porque os arqueólogos não trabalham de graça, para isso existem voluntários, que têm o seu próprio e legítimo domínio.
Onde reside a dúvida? Será necessário, como preliminar para um diagnóstico, fazermos meramente a recolha das lamentações que saturam fóruns, debates, conferências e outros espaços de intervenção visível? Porque para além disso há as conversas de orelha a orelha, no chat ou no messenger, entre os que têm medo ou inibição de se manifestar publicamente. Por vezes, porque não escrevem segundo as normas.
Mas do que ninguém arreda pé é de um determinado modelo de sustentabilidade para a arqueologia, que faliu antes da sua aplicação. Faliu o modelo, porque, como em tudo, enquanto vigorou alguns tiraram dele partido. A arqueologia não tirou.
De modo que, dá-se um empurrão aqui, outro acolá, endireita-se de um lado e machuca-se do outro, a coisa ainda há de ir ao lugar.
Ora, em minha opinião, é uma típica lusa psicose. Se, para reprogramar o futuro, for necessário recensear o passado e a memória, então o futuro que se dane, eu já estou velho, os que vierem que tratem da vida. E há ainda aqueles que, mesmo apertados no limiar da sufocação, ainda cabem no pacote. A esses ninguém os tira de lá, porque há sempre aqueles aos quais a morte espreita.
E é assim que se vive. No teatro das vaidades, a cortina do fundo do palco é opaca e prolonga o cenário.
Há arqueólogos a mais? Há arqueólogos a menos? Empresas que bastem para a serventia de que as obras necessitam. Se é a estes dilemas que um consistente diagnóstico da sustentabilidade da arqueologia necessita de responder, deixando de parte as questões que se colocarão no futuro sobre o que é afinal a arqueologia e quais os patamares e domínios sobre que tem que intervir e como, em referência a que princípios e a que programa de sustentabilidade da comunidade no seu conjunto, o diagnóstico faz-se num ápice, estará porventura até já feito, segundo alguns. Faltam arqueólogos e faltam empresas para se escavar o país de lés a lés, aonde a picareta, o teodolito e o colherim forem precisos, atrás das retroescavadoras.
Eu começo a duvidar de que não existam mais empresas de arqueologia do que de construção civil, mais arqueólogos do que pedreiros ou ladrilhadores. Mas como escasseia o trabalho tanto para umas como para outras, tanto para uns como para outros, fica tudo em pé de igualdade.
Mistificações? Não. Gente distraída.
Bem, podem sempre responder-me que eu não sou arqueólogo. Como queiram. Mas, para mim, arqueologia não é isto que Vossas Excelências andam a fazer. Vossas Excelências não sois arqueólogos. Podereis vir a ser. Assim não. Eu sou.
Os jovens sem trabalho também são arqueólogos. Porque ainda não fizeram nada que se possa excluir da arqueologia pretendendo sê-lo. Porque estão desempregados.
É a primeira parte de uma intervenção que terá que prosseguir. De seguida, vamos a coisas mais objectivas, como arqueólogo gosta. Exempla.
Os exemplos.

Trabalhos a mais, cabeça a menos.

O problema surgiu com explícita visibilidade quando o Presidente da Câmara de Viseu lançou o alerta. Os materiais provenientes de uma dezena de anos de trabalhos arqueológicos no Concelho jazem em caixotes nos armazéns das empresas que os realizaram. Não se encontram classificados nem tratados para suportarem a instalação museológica. Bem, o Presidente reclama, mas ainda não há Museu, nem se sabe quando virá a haver.
Na opinião do Presidente, que não é arqueólogo e provavelmente avalia erroneamente a situação, tratar-se-á de cerca de 200.000 referências, na maioria fragmentos. O IGESPPAR não pode proceder à trasladação para o seu foro, porque não dispõe de instalações para acondicionamento de tanto material. Ou de nenhum.
E eu pergunto: isto é arqueologia? Não posso responder, porque não sou arqueólogo. Pelo menos arqueólogo desta arqueologia. Mas é sem dúvida uma das formas como a arqueologia se transmite à comunidade.
Maus exemplos, dir-se-ia. Tomáramos que fossem maus exemplos, circunstanciais.
Ninguém conseguirá fazer um raciocínio elementar? Se o modelo empresarial fosse o modelo eficaz para a sustentabilidade da arqueologia, temos que reconhecer que alguém pôs o carro à frente dos bois. Não estavam constituídos os mecanismos, nem a juzante, nem a montante, que dessem contexto a e suportassem uma intervenção racional das empresas. Entre tais mecanismos inclui-se o normativo legal que administraria a supervisão das entidades tutelares e enquadrasse a intervenção empresarial no quadro de um programa sustentável, referido a vários factores. Assim não sendo trata-se, no mínimo, de capitalismo selvagem.
Seja, os arqueólogos não necessitam de escavar para terem trabalho. De outro modo, chegará o dia em que não haverá nesga já para escavar, mas toneladas de materiais para inventariar, tratar, estudar, enquadrar em museus ou depósitos museológicos. Poderia colocar outras questões, relacionadas com a preservação de materiais e estruturas provenientes e intervencionadas no âmbito destas práticas, mas esse assunto exige ainda muita ponderação para um idóneo diagnóstico.
Deste exemplo, que se poderia multiplicar com outros que todos comentam discretamente, o que se pode concluir? O actual modelo de prática arqueológica terá porventura permitido que se continuasse a escavar, à boleia da legislação que obriga ao acompanhamento arqueológico das intervenções sobre o território, mas mergulhou na irracionalidade absoluta.
Por isso, reclamo um plano estrutural de escavações, porque estou convencido de que nem tudo o que se regista no âmbito de um EIA tem que necessariamente ser escavado. Pode ser registado e protegido de muitas outras formas. E quanto a escavações devia haver um plano que formulasse prioridades que fizessem ponderar uma estratégia de investigação e de valorização qualitativa do conhecimento arqueológico, não meramente cumulativa. E esse plano deveria prevalecer sobre qualquer outra lógica ou irracionalidade circunstancial.
Por isso proponho, suspendam-se as escavações, pelo menos as que não estão já em curso e têm que ser concluídas, até que esta questão seja devidamente ponderada.
É que, se um EDIA não obrigar necessariamente à intervenção intrusiva sobre tudo o que é detectado e registado e obrigar a outras soluções que evitem a destruição mas permitam o registo e a preservação, que acabarão por ser menos dispendiosas para as empresas de construção, geraremos um contexto de solução para outro problema que também vai sendo comentado sem alguém querer assumir que existe. A pressão das empresas de construção sobre as empresas de arqueologia para que se passe em branco por cima de estruturas arqueológicas, ou para que as intervenções se realizem com rapidez sem imobilizar as máquinas.
Quanto à razão quantitativa entre arqueólogos e necessidade do mercado de trabalho, eu tenho que inverter os termos da equação. Não pode haver mais arqueologia para poder haver e podermos formar mais arqueólogos. Temos que formar os arqueólogos de que a arqueologia necessita.
Se já os há a mais, teremos que colocar a questão nos seguintes termos: a formação de novos arqueólogos deve ser ponderada, até que exista um diagnóstico rigoroso, tendo em horizonte a necessidade civilizacional da reprodução e transmissão do saber no futuro.
E termino com a pergunta que todos já deviam ter colocado a si próprios: não será que é às empresas de arqueologia que interessa que haja arqueólogos a mais, simulando que não os encontram no mercado, para ditarem as condições de trabalho de que todos se queixam?
Bem, na crista da onda, já estou a tratar da arqueologia como mercadoria. E era o que queria evitar.

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Prosseguindo um debate de crucial relevância

O futuro das qualificações profissionais.
Reiniciando um tópico que se quer superar pela porta de trás. Saindo pela da frente.
Como apelo para o retomar da abordagem deste tópico, que me recoloca na crista da onda, malogradamente, transcrevo aqui algumas intervenções em que num forum de intervenção pública respondi ao apelo de uma jovem desorientada.
Tenho acompanhado com certa assiduidade este tópico e outros relacionados com o futuro destino dos jovens que iniciam ou terminam a sua formação específica em Arqueologia e, olhando o futuro, sentem a ansiedade e o pânico de se defrontarem com um horizonte cada vez mais limitado de aplicação das suas qualificações.
Tenho 58 anos, vou em Agosto completar 59, tenho mais de vinte anos de ensino em vários contextos e níveis, sei o que é o dilema de um jovem face ao futuro, o dramático itinerário entre o sonho e o pânico, muitas vezes a precoce desilusão.
Talvez vos mace com o meu discurso de cota, mas vou-vos, em vários episódios, relatar a minha experiência e as minhas vivências, esperando, modestamente, que possam servir para vos transmitir algum alento.
O primeiro tema que vou abordar talvez vos surpreenda pois ninguém tem a coragem de o colocar como é, nua e cruamente.
Tenho um vasto investimento de trabalho no domínio da formação profissional. Durante os anos de 1993 e 1994, fui o responsável pedagógico, entre outros, do Curso Técnico de Profissionais de Turismo, na Ecola Bento de Jesus Caraça, em Évora, onde leccionei a Cadeira de Itinerários Turísticos e coordenei as Provas de Aptidão Profissional durante três anos. Instalei ainda o Curso Técnico de Profissionais de Design.
Assisti atónito à leviandade com que proliferavam os cursos profissionais em várias áreas, em que era visível que se alcançassem, a velocidade astronómica, os estreitos limites da procura por parte do mercado de trabalho. Encetei acirradas polémicas por propor que, tão importante como as transmissões de conteúdos técnico-científicos, era a formação dos jovens para a sua própria iniciativa empresarial e associativa, na procura dos contextos de uma aplicação eficaz das suas qualificações.
Coloca-se-nos ainda outra questão. A formação e qualificação dos cidadãos não pode continuar a ser ponderada, apenas, do ponto de vista tecnocrático, como um valor de mercado. É também um valor cultural e de cidadania. Uma qualificada formação na área da Arqueologia constitui um substrato cultural de exercício da cidadania.
O que virá a ser a Arqueologia no futuro? Já propus em outros contextos que, com os meios de detecção remota que podemos calcular que estarão disponíveis em breve, torna-se dispensável escavar, pois a própria jazida e o sítio se podem transformar no próprio museu, potenciando uma perspectiva cultural aprofundada de valorização do território.
Nem todos os arqueólogos terão necessariamente que escavar, nem a Arqueologia pode reduzir-se à escavação, tem que se tornar cada vez mais transdisciplinar e transcultural, invadir incisivamente e em profundidade a Antropologia Cultural, a História da Arte, a Estética, a Filosofia, etc.
Vós comungais os vossos dilemas com muitos outros jovens atraídos para outras áreas de formação, como os professores. Desde há cerca de vinte anos que as tendências estatísticas indicavam a desertificação demográfica na Europa e nós continuávamos a formar exércitos de professores.
Não posso deixar de vos propor, mesmo que tal choque muitos dos meus companheiros da minha geração, que os cursos de formação profissional de técnicos de arqueologia, bem como a proliferação de variantes nas Universidades, serviam mais os interesses dos docentes, que necessitavam de enquadramentos periféricos de aplicação profissional, do que os dos formandos e alunos, que todos sabiam que se iriam defrontar com sérios problemas de enquadramento profissional.
A minha maior angústia, quando leio algumas intervenções vossas, assenta no medo de que vos venhais a tornar meros reprodutores da mentalidade anquilosada da minha e de precedentes gerações, reproduzindo atitudes, procedimentos, inércias, soluções conjunturais dimanadas do interesse e necessidade imediata, que, a longo prazo, nos lançarão num beco sem saída.
Espero de vós o que vós não podeis já esperar de nós, a criatividade, o longo alcance de vista, a solidariedade humana, a superação do individualismo egoísta, o espírito de associação na procura de soluções colectivas e solidárias.
Para isso tendes que desalojar os velhos. O futuro é vosso e está nas vossas mãos.
É apenas uma primeira formulação de fundo das questões que vos atormentam. Em breve desenvolverei tópicos mais objectivos.
Espero que possa contribuir para que tomeis consciência da vossa força e capacidade para mudar a vida. Nós não o conseguimos fazer.
Um abraço a todos.
Manuel
De novo, da minha solitária condição de cota maçador, invocando as minhas memórias, venho colocar à vossa ponderação talvez inesperadas questões, que em breve espero que compreendais de que forma podem contribuir para que se oriente para novos caminhos a reflexão sobre os problemas que legitimamente vos inquietam.
A maior parte de vós viveu como estudante, eu como professor, os debates que envolveram o ambiente em que decorreu a última grande reforma do sistema educativo, nos inícios da década de 1990. Todos, de uma forma ou de outra, se entusiasmaram com a perspectiva de que tudo iria mudar e de que uma nova era se abria para a educação e para a cultura em Portugal.
Muito poucos todavia se aperceberam de que a reforma tinha fundamentalmente duas vertentes e de que um intenso debate se instituíu sobre qual delas devia ser predominante. Uma era a vertente curricular, que mobilizava sobretudo um segmento tecnocrata do sistema, outra era a vertente cultural e pedagógica, que mobilizava sobretudo os segmentos do sistema mais envolvidos com questões doutrinárias relacionadas com o papel da escola e da sua relação com os múltiplos segmentos da comunidade.
Estas duas posturas tiveram mesmo protagonistas bem individualizados, por um lado o Professor Frausto da Silva, que presidia à Comissão de Reforma do Sistema Educativo, representando a vertente curricular e tecnocrata, por outro o Professor Manuel Ferreira Patrício, então Presidente do Instituto de Inovação Educacional, representando o Projecto Escola Cultural. Importa deixar desde já claro que a minha adesão ao Projecto Escola Cultural não foi incondicional, mas crítico.
O texto final da Reforma viria a apresentar-se, aparentemente, como um compromisso entre as duas correntes de opinião, mas era desde logo óbvio que o que viria a prevalecer era a componente tecnocrática e curricular, em detrimento da componente cultural e pedagógica que propunha como linhas axiais o ensino individualizado, o estreitamento da relação entre os agentes e sujeitos do processo educativo, a reciprocidade na aprendizagem entre o professor e o aluno, o reconhecimento da multiplicidade cultural e da diversidade de objectivos da escola e da escolaridade. Todos estes componentes rapidamente se esbateram e, em breve, tínhamos de novo turmas com mais de vinte e cinco alunos, a prevalência de componentes curriculares como o Português e a Matemática, os professores comprometidos com objectivos curriculares de sucesso educativo, com programas, etc.
A escolaridade obrigatória subia sucessivamente de nível e reforçava-se a sua universalidade extensiva a cada vez mais ciclos.
Devo dizer que, em meu entender, uma escolaridade obrigatória assente num currículo universal é uma perversão da sociedade democrática.
Mas o que quero transmitir, no fundamental, é que, no pensamento dos promotores de uma reforma predominantemente curricular e tecnocrática, esta opção visava com maior eficácia objectivos como a preparação dos jovens para a vida activa, para a sua inserção no mercado de trabalho e para qualificação da competitividade da Nação no mundo global.
Vós sois hoje os testemunhos de que isso não correspondia à verdade.
E o que me proponho debater convosco é o porquê.
E perguntar-me-eis o que interessa isso à Arqueologia. Interessa para ponderar e superar a vossa condição de desemprego e de desorientação no que respeita ao futuro da aplicação das vossas qualificações.
Manuel
Caros amigos.
No seguimento da penúltima intervenção, vou prosseguir propondo-vos à reflexão um assunto cujo significado só muito recentemente se tornou compreensível.
Durante quase duas décadas, o curso superior com número de ingressos mais restrito foi o de medicina. Presumia-se que se tratava de uma medida cautelar, visando a qualificação do sistema de saúde e a dos seus agentes. Nesta base toda a gente o aceitou.
Quantos jovens, que potencialmente se poderiam ter afirmado como excelentes clínicos, foram atirados para a periferia do sistema, acabando por concluir cursos de enfermagem, de biologia, de farmácia, etc..
De súbito, sabemos que a actual Ministra da Saúde, reconhecendo a escassez de médicos que sustentassem com eficácia o sistema, anunciou o recrutamento de médicos no Brasil e em alguns países do Leste europeu. Não sabemos quais os requisitos que vão presidir a tais recrutamentos e se equivalem ao rigor dos que estabeleciam a restrição de acesso aos nossos jovens.
Mas nunca houve restrição de acesso aos cursos de História, Arqueologia, às vias de ensino de várias áreas disciplinares. Por isso não vamos necessitar de recrutar arqueólogos, professores, historiadores, etc., no exterior, vamos atirar com os licenciados e profissionais de arqueologia, os historiadores, os professores para as caixas dos supermercados ou para os call center dos grandes operadores de telecomunicações. Ou para os bancos dos jardins.
Bem, para além do mais, com o peso tutelar do Estado sobre a área do Património, à partida, só o aparelho do Estado, ou das empresas privadas a que o Estado adjudica trabalhos arqueológicos, ou certifica para os fazerem, podem integrar profissionalmente arqueólogos.
Mas não há dinheiro para a arqueologia nem para cultura no contexto da alegada crise.
Vai ser necessária muita tenacidade e muita criatividade para sair desta ratoeira.
Eu, por mim, estou com os jovens e confio neles.
Façai um esforço para não reproduzirdes no vosso quotidiano os vícios de atitude da minha e subsequente geração.
Pensai futuro. Pensai em novas dinâmicas para a aplicação das vossas qualificações. Isso só será possível quando a arqueologia deixar de ser um assunto hermético e exclusivo dos arqueólogos e for devolvida à comunidade.
Manuel

sábado, 20 de Junho de 2009

Archport, Fernanda Frazão, 18 de Junho de 2009.

Notícia com data de hoje.

http://news.nationalgeographic.com/news/2009/06/090615-stonehenge-tombs-crop-circles.html

6000 Year Old Tomb Complex Discovered



Ora, aqui temos um exemplo sobre o qual devemos reflectir, acerca da utilização de dispositivos remotos de prospecção arqueológica, com resultados surpreendentes, afinal a antecâmara de uma nova era em que a oportunidade das intervenções intrusivas e de aleatória exploração terão que ser reequacionadas.
Andar atrás das máquinas em contexto de estudo de impacto arqueológico e, depois, atrás das quadrículas e do desenvolvimento da sua abertura, poderá muito em breve ser uma intervenção anacrónica. Já o era há muito.
Um voo bem preparado de prospecção pode ficar muito mais barato e ser mais eficaz do que um dia de trabalho de uma equipa de arqueólogos no campo. Com a vantagem de fornecer dados fiáveis que evitem a intervenção intrusiva, quer arqueológica, quer de outra espécie.
A prospecção remota não se reduz a detectores de metais, com há muito era óbvio.
Como reformular o tecido disciplinar e profissional da arqueologia formulando estes tópicos? Qual o futuro dos profissionais arqueólogos e das dezenas ou centenas de empresas de arqueologia? Pensar, caros amigos, pensar…
E agora? Quando inesperadamente, fazendo eco de muitas críticas políticas em que a arqueologia embarcou, um grupo de economistas cuja coesão ainda é insondável, uma espécie de praça da concórdia de António Ferro, questiona a oportunidade do investimento nas grandes obras públicas, TGV e Aeroporto de Alcochete?
Insisto na oportunidade cada vez mais urgente de um Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos, que não seja ditado e coordenado pela agenda das obras públicas e privadas. Essas, pelos vistos, têm à disposição meios de monitorização remota de eficácia inquestionável. A um arqueólogo profissional vai em breve ser exigido o brevet de piloto aeronáutico. Ou outras qualificações.
Vale a pena pensar…

Manuel de Castro Nunes

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Ainda na crista da onda. Assim ningém consegue pensar. Vamos ao trabalho!

Mensagem publicada em archport.
Ora perdeoem-me então os archportianos, o non sense, passe o estrangeirismo, parte dos orgãos de comunicação social ou tornou-se já numa patologia infecto-contagiosa?
Bem, uma via romana cujo traçado passa a pouco mais de uma centena de metros do que era, há dez anos, o aerodromo de Évora é um tópico recalcitrante da historiografia regional há quase um século, a bem dizer há quase meio milénio, André de Resende. Trata-se da designada Estrada dos Diabos, Mário Saa, As Grandes Vias (...), etcetera e tal. Para quem o quiser posso cartografá-la.
O que não sabíamos ainda era que os romanos já por aqui andavam no Século IX/VIII AC, II Período da Idade do Ferro. Que estabeleciam as suas necrópoles junto das vias, que já lá estavam quando os autóctones estabeleceram as suas, apropriando-se de uma novidade romana.
Bem, que isto não tem qualquer sentido já todos perceberam.
Todavia, para esclarecer outros episódios, seria conveniente saber se o paradoxo é da responsabilidade do arqueólogo nomeado, ou se do jornalista. A mim, quer-me parecer que a APA devia propor um curso de reciclagem disponível para os jornalistas que intervêm sobre esta matéria. Resguardava-se a reputação dos arqueólogos.
E continuo a recalcitrar na minha sugestão, a arqueologia tem que se reapropriar dos instrumentos de sociabilização da cultura arqueológica. É uma tarefa de cidadania. Caso contrário, aonde iremos parar?
Referente a notícia do Público, 05.06.09, amplamente comentada em archport.
Aproveito para citar e o recordar, António Carlos Valera, Praxis Archaeologica 3, 2008.

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Conversas de arqueólogos 2

Conversas de arqueólogos 2
Ainda na crista da onda recenseando tópicos
O forum archport, a mais consagrada expressão cibernáutica de divulgação de assuntos relacionados com a arqueologia, fez, através da sua administração, no espaço de menos de dois meses, dois apelos para que os seus intervenientes se situassem no nível elevado de divulgação de eventos e novidades no âmbito da investigação ou da sua divulgação no domínio estrito da disciplina.
Entretanto, decorriam alguns interessantes debates sobre questões que têm que ver com a inserção da actividade da arqueologia na comunidade, com a legislação que enquadra a actividade arqueológica, com a salvaguarda e valorização do património, a relação entre a arqueologia e a museologia.
A própria administração promoveu algumas dessas intervenções.
Mas, atenção, questões e debates pessoais, não. Não se compreende todavia quais são as questões e os debates que se consideram pessoais e de que critérios se usa para bloquear uma intervenção, porque é já uma incursão pessoal sobre uma matéria.
Bem, não percebe quem não quer.
Alexandre Monteiro reproduziu uma notícia do jornal O Público onde se manifestam preocupações sobre o futuro do Campo Arqueológico de Mértola, confrontado com a sucessiva dissociação, ou mesmo má vontade da Câmara Municipal de Mértola e do seu Presidente.
Responde o Professor Victor Gonçalves, com uma discreta chapelada a Cláudio Torres, mas questionando a referência a que Cláudio Torres tenha trocado a FLUL pelo Campo Arqueológico de Mértola.
É óbvio que não trocou e a invocação dos episódios concretos que determinaram o abandono da FLUL e a diligência e empenho com que tornou o CAM numa unidade de investigação, trabalho e de extensão da cultura arqueológica, histórica e artística e coloca o CAM, porventura, na vanguarda de uma intervenção estruturada que nenhuma universidade, por várias razões, poderá empreender, redundará no rastreio de complexas questões pessoais.
Seja, Cláudio Torres não abandonou a FLUL, a FLUL abandonou Cláudio Torres e perdeu um agente cultural com potencialidades de que não suspeitou, ou não soube reconhecer. Embora o Professor Borges Coelho tivesse sempre feito o possível para que se mantivesse uma certa simpatia por Cláudio Torres.
E ao fim e ao cabo, os problemas do CAM reproduzem a sucessiva liquidação do PNTA, porque se apoia agora mais a investigação empresarial, em que todos os arqueólogos quiseram inserir o seu PPTA (Plano Pessoal de Trabalhos Arqueológicos). Será que o Professor Victor Gonçalves se terá tornado no mais dilecto dos meus leitores? Parece-me que tenho sido eu quem, como arqueómano, tem levantado essa questão.
Devo confessar que só depois de ler as respostas de Rui Pinto pude proceder à releitura do comentário e correcção de Victor Gonçalves e atingir o seu derradeiro sentido.
Questões pessoais?
Talvez. Mas vão-nos dar pretexto para levantar muita matéria.
Archport Mailing List, 31 de Maio e 1 de Junho do corrente.

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Conversas de arqueólogo

O melhor retrato dos arqueólogos não é o trabalho... são as conversas que ocorrem entre eles, no intervalo das palmas e... do trabalho, claro.
Este é um tópico da ideologia obreirista, imediatista e acéfala. Se alguém não fala de futebol, ou de outras trivialidades consensuais, o patrão ou os seus esbirros logo interpelam:
vai trabalhar, malandro!
O quê?
diz o obreiro,
mas ele nem me paga!...
E, afinal, andam os arqueólogos todos a clamarem porque não têm emprego, que lhes é roubado pelos jovens voluntários. Diz então, estulto: trabalhas em quê?
Continuo a interrogar-me se intervenções de emergência, para deixar avançar uma estrada ou um complexo urbanístico, serão trabalho arqueológico, de serventia à construção civil, ou de bombeiro. Alguns bombeiros são voluntários.



Ora, para que se pense um pouco antes do trabalho rederecciono para um novo espaço de debate e comentário.

http://groups.google.pt/group/archaeomania-forum

mailto:archaeomania-forum@googlegroups.com

segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Scientific Investigation of Copies ... - Pesquisa de livros do Google

Scientific Investigation of Copies ... - Pesquisa de livros do Google

domingo, 19 de Abril de 2009

O tesouro de Baleizão. Um paradigma.


O tesouro de Baleizão. Um paradigma.
A fíbula Bragança. Um arquétipo
Na Primavera de 2007 o ambiente arqueológico e museológico espanhol, nomeadamente madrileno, congregou-se em torno da exposição El Heroe y el Monstro, estruturada pela presença de um arquétipo tópico da arte e joalharia ibérica, para o efeito cedida pelo British Museum. O contexto constituiu o pretexto para a reunião no Museu Arqueológico de Madrid de 83 referências de excelência na arte antiga pré-romana ibérica.
Se há referência que congrega em si toda a complexa problemática que respeita à creditação e atribuição de um objecto de arte, a Fíbula Bragança constituiu-se sem dúvida, em nosso entender, no arquétipo por excelência.
Na página seguinte deste blog, deixamos o link para uma das obras mais virulentas, mas também uma das que mais estruturada e sinteticamente aborda a questão da autenticação do objecto de arte em referência aos dispositivos que actualmente se encontram disponíveis para superar as metodologias tradicionais de análise, colocando de resto, várias questões que dizem respeito à análise do objecto arqueológico, ou passível de uma abordagem recorrente da arqueologia, sem contexto, Paul Craddock, 2007, Scientific investigation of copies, fakes and forgeries, Butterworth-Heinemann, London.
Sucessivamente exposta a polémicas e reponderações, centradas na análise da coerência estilística e da hermenêutica iconográfica, a confrontação dos dados adquiridos pelas análises laboratoriais em várias sedes independentes confirmou conclusivamente a sua autenticidade, no que respeita à sua atribuição cronológica, Século III AC.
O campo que resta em aberto é a sua presumida procedência, seja a Península Ibérica, mais propriamente o alto Guadalquivir. As análises estilísticas continuam a prevalecer na polémica estritamente respeitante a esta questão. A mobilização que a recente exibição em Madrid congregou em seu torno transformou-se num episódio difícil de superar, no que respeita à reclamação da comunidade científica e cultural espanhola, que assumiu o objecto como património da cultura peninsular, a mais insigne realização da ourivesaria, ou joalharia de tradição ibérico-tartéssica.
Pessoalmente, talvez em contra-corrente, colocaríamos algumas reservas em relação à linearidade dessa atribuição. Tais reservas seriam, no contexto das questões que estamos a abordar, irrelevantes.
Ora, o mais substancial que pretendemos pôr em relevo relativamente a este objecto e ao seu valor apelativo, é justamente a sua história recente. O objecto foi pressupostamente adquirido por Fernando de Saxe-Coburgo, Príncipe Consorte e cônjuge da Rainha Dona Maria II, e nada se sabe acerca da procedência. Tem depois, a partir de 1941, data do falecimento da Princesa de Bragança nos Estados Unidos da América, um itinerário de mercado bem documentado, que se conclui com a aquisição pelo Museu Britânico.
Sujeito a consecutivos episódios de rejeição, firmados na hipótese de pressupostas incoerências estilísticas, foi conclusivamente creditado através da mobilização de dispositivos laboratoriais inquestionáveis.
Como objecto de arte, é sem dúvida das mais apelativas realizações de ourivesaria, ou joalharia, da antiguidade, ombreando com as mais consagradas realizações helénicas e etruscas.
Pode a arqueologia rejeitá-lo como objecto do seu alcance disciplinar, ou recorrente do seu alcance disciplinar, com a alegação do argumento de que se trata de um objecto sem referências a um contexto arqueológico de exumação?

sábado, 11 de Abril de 2009

O arqueómano

O arqueómano

Declaração de princípios



Muita ambiguidade se tem manifestado na interpretação deste pristino estatuto que reclamo, não só para mim mas para todos os que a ele quiserem aderir. Como é óbvio, cada um pode ser arqueómano à sua maneira. Mas esta é a minha, exaustivamente ponderada. Só a interpretou de certas formas quem o quis. Ou talvez eu próprio não tenha sido exaustivamente explícito. Compete-me, nesse caso, reconhecer que partiu de mim a sobranceria. Trata-se então de a corrigir.

O arqueómano não adere à utilização de dispositivos de detecção remota com o fim de facilitar a exumação de materiais arqueológicos. Os dispositivos de detecção remota, hoje existem muitos e de múltipla natureza, devem de resto constituir-se em auxiliares que dispensem a intervenção de exumação, quer de materiais, quer de estruturas.
Partindo dos mesmos pressupostos, o arqueómano não adere a escavações sugeridas por necessidades efémeras e de circunstância. Entram nesta categoria as chamadas escavações de emergência. Em alternativa, o arqueómano sugere a imediata suspensão de todas as intervenções no terreno, com vista à reformulação e reforço de um coerente plano nacional de escavações, que se deve transformar no eixo da intervenção arqueológica, nesta área.
O arqueómano entende que as tarefas que exigem actualmente mais aplicação e reflexão são as que respeitam à sociabilização da matéria arqueológica, a promoção de uma cultura arqueológica no seio da comunidade e o estudo aprofundado dos materiais e sua contextualização resultantes de anos de intervenção no terreno precariamente programadas.
O arqueómano reconhece a qualquer cidadão, independentemente do seu estatuto, o direito de questionar os procedimentos técnicos aplicados pela arqueologia em qualquer circunstância, tanto no que respeita à intervenção sobre materiais, como sobre estruturas, e imputa ao arqueólogo o dever de colocar com toda a abertura à disposição da comunidade os meios que permitam avaliar a oportunidade de qualquer alegação. O último argumento que um arqueómano reconhece é a invocação de um estatuto.
O arqueómano entende que a reformulação dos dispositivos legislativos se tornou num dos mais urgentes meios para prosseguir estes objectivos.
O arqueómano rejeita que a arqueologia se transforme num instrumento persecutório indiscriminado que possa inibir a espontânea fruição da matéria arqueológica por parte da comunidade. O arqueómano é solidário com o arqueólogo na promoção de medidas que preservem e curem do património arqueológico e cultural, promovendo mais uma profunda cultura arqueológica do que a gratuita produção de dispositivos penais.
Dados estes pressupostos, o arqueómano propõe o princípio de que nenhuma intervenção sobre o património arqueológico e cultural pode ser vedada a qualquer cidadão, senão aquelas de cuja ausência de requisitos técnicos explícitos resulte dano ou dolo sobre o património. É esse o domínio exclusivo do arqueólogo, como profissional institucionalmente reconhecido.
Este é o programa do arqueómano para o presente e o futuro. Ele resulta também de uma exaustiva avaliação dos desvarios do passado e sabe que muitos deles são irreversíveis. O arqueómano é solidário com o arqueólogo na procura de soluções operacionais, racionais e comunitariamente solidárias para reverter as consequências dos desvarios e incúrias do passado.
Este princípio aplica-se à recuperação nas melhores circunstâncias do património sem rasto sonegado à fruição da comunidade.
O arqueómano e a arqueomania anseiam pela circunstância em que seja oportuno cruzar a sua intervenção com o arqueólogo e a arqueologia.

Para quem não o soubesse, isto é um arqueómano.

Manuel de Castro Nunes

sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Arqueomania versus Arqueolgia

Em 1999, o presidente de uma fundação dedicada ao estudo e preservação do património histórico e arqueológico, pediu-me que lhe apresentasse um plano de trabalho para abordar vários tópicos da história e da arqueologia, renitentes referentes da sua região de origem. Não se tratava de um estudioso ou investigador, senão de um simples apaixonado pela história e pela arqueologia. A sua paixão era endémica e, se eu lhe pedisse para a explicar, não o conseguiria. Levei pouco tempo para concluir que eu próprio nunca compreenderia a minha.
Ora, o prólogo da apresentação dos resultados do trabalho que viria a realizar continua a ser a mais espontânea expressão de uma ideia que tento transmitir há muito.
O itinerário da minha relação com a arqueologia teve raiz arqueómana e a ela regressa. Mal será de um arqueólogo que queira reduzir a sua relação com a arqueologia a uma actividade profissional, ou a um exercício disciplinar. Será como um médico sem vocação.
E só pode ser no domínio desta paixão e deste afecto e quando a ele regressa, vertido para a linguagem de uma partilha sem prosélitos limites, que o trabalho do arqueólogo adquire o seu sentido.
Como apaixonado também da história da medicina e da cultura médica, tendo como referência o paradigma Vesaliano, temo mesmo mergulhar na arqueopatia: “e o que não diria ainda da vivissecação do cérebro”, confessou o médico.






Introdução




Limina Aritivm, ou seja a morada ou o território demarcado, porventura pelo fio da espada, dos arites, que não sabemos bem quem hajam sido, ou se foram sequer. A história é um jogo, em que a poética e a razão se degladiam, o sonho e a vigília mutuamente se dissipam e se confundem. (*)
Este programa de trabalho percorreu ele próprio um sinuoso itinerário e pejado de precalços, para se associar, até no destino, ao núcleo do seu tema, que era à partida, mau grado os pretextos, os caminhos e as veredas com o seu espectro interminável de hipóteses de sentidos e de origens. Caminhos para nenhures, em demanda de coisa nenhuma, para o Sol Nascente e para o Ocaso, ou acaso, sepultados na poeira do abandono e da memória, por onde, no vai e vem da vida e dos milénios, calcorrearam o mundo pastores e marinheiros perdidos, bufarinheiros alucinados e deuses despojados, cujos espectros ainda nos surpreendem por um instante breve, desolados no poial de uma fonte seca, saltitando de pedra em pedra sobre as passadeiras do vau de uma ribeira fresca, ou perscrutando lonjuras num cruzamento sem horizontes. A história faz-se na peugada dos espectros que se nos insinuam.
Estruturou-se em torno de uma ideia, em torno de tópicos tão vagos que até parecia que não partira, para lado nenhum, do horizonte remoto da mirambolância. Depois, a ideia foi ganhando referências a registos objectivos. Mas continuou o seu trilho incerto e foi encontrando, em cada objecto concreto com que foi povoando o seu horizonte longínquo, novos pretextos e razões para prosseguir, orientado aos quatro quadrantes. Acreditamos que os sonhos são premonitórios e os objectos reais já foram imaginados.
Em 1999, a Fundação para o Estudo e Preservação do Património Histórico-Arqueológico propôs-me que me debruçasse sobre um elenco de tópicos que sintetizavam séculos de invocações com que se foi esboçando a memória colectiva e a identidade do cidadão de Abrantes, morador do Tejo, do aquém e além Tejo, nas fronteiras dos míticos reinos de Tartessos e da Atlântida, vizinho de Moron, de Aritivm, de Tvbvcci, dos cinetes, dos cónios e dos sefes, que não sabia já bem de onde havia espreitado de longe o reboliço fumegante do acampamento legionário de Decimvs Ivnivs Brvtvs espraiado pela lezíria. Alcantilado nas escarpas sobranceiras, com o comboio a sulcar pachorrento as falésias, o seu olhar perdia-se perscrutando na superfície metálica do rio explorando cada curva, cada reaparecer serpenteante no horizonte, à procura de uma vela enfonada de qualquer barca romana ou cartaginesa, de um grupo de homens vergados ao jugo da sirga, em cuja ponta qualquer batel emergiria da bruma.
Durante alguns meses, não soubemos, nem nos interessou o que fazer. Simplesmente perdemo-nos pelas ravinas ou pelas planuras intermináveis, subindo e descendo os cursos pedegrosos de ribeiras e de rios, trepando aos cerros, atolámo-nos na lama e nas areias dos sapais, atrás de mitos, de divindades ocultas, que residiam nas pedras, nas árvores, no próprio cantar dos rouxinóis. A arqueologia é também uma bucólica, a atribuição de uma história à natureza. Aqui registava-se um caminho, ali uma ponte, acolá os escombros de uma presença milenar, uma anta, ou uma pedra simples e vadia a desafiar a imaginação locubrativa.
Nos fins de Dezembro, tínhamos um objecto para estruturar e dar consistência a esta itinerância renitente. O Tejo... e os caminhos, de novo. Basta andar por aí e ser-se vadio, para compreender que os caminhos fizeram a História.



(*)Parte-se aqui de um pressuposto, ou hipótese, talvez polémica, mas coerente nos meios requeridos para a formulação. Aritivm afigura-se em tudo como sendo o genitivo plural de um nome latino de tema consonântico ou semi-consonântico, i, referindo então uma condição de posse sobre um território ou um estabelecimento urbano.
Aritivm, como tópico da geografia humana antiga, aparece referido em dois contextos. Numa lâmina de bronze citada até à exaustão, publicada por Jorge Cardoso , Agiológio Lusitano, III, Lisboa 1666, que apareceu junto de Alvega em 1659, nas bordas de uma ribeira geralmente identificada com a Ribeira da Lampreia, que vai buscar as suas águas às imediações de Longomel, aparecem nomeados os Aritienses e Aritivm Vetvs. O monumento, geralmente designado juramento dos Arícios, é um estranho vínculo de fidelidade ao Imperador Calígula, com um cunho marcadamente corporativo e militar, que parece corresponder à integração dos Arícios na estrutura censitiva romana, constituindo porventura a Cohors Aritivm.
Também, ao traçar os dois itinerários principais de viagem de Vlissipo para Emerita Avgvsta, o itinerário de Antonino Pio, que adiante analisaremos, nomeia, no iter XIV, Aritivm Praetorivm entre Vlissipo e Abelterivm.
Como aconteceu com a Igaeditania, morada dos Igaeditani ou Igaeditanes, que num processo de etimologia pleonástica originou o nome de Igaeditanienses, senão podemos ainda presumir a pristina fórmula Igaedites com morada na Igaeditania, é de presumir que Aritivm, em tudo configurado como genitivo de Arites, designando a sua morada, tenha originado, quando as relações entre os nomes poderia ser já remota ou difícil de apreender pelos romanos, o nome Aritienses para designar os Arites. Ainda se poderia especular se os romanos não chamaram Aritienses aos habitantes de um oppidvm ou de um território que se apossou do nome Aritivm do território dos Arites, para distinguir os novos povoadores, ou colonizadores (aricienses por morarem no território Aritivm) dos veteres (antigos). E por isso se continuava a falar de um Aritivm Vetvs, designando o território, ou o oppidvm dos Arites. Mas a instituição que ficou vinculada ao conjunto dos Arites, Aritivm Praetorivm, como sede de uma Cohors Aritivm (Cohorte dos Arícios), manteve o pristino e imediato genitivo. Uns seriam então os Aritienses, habitantes de um oppidvm Aritivm, outros os Arites, senhores de um prévio territorivm ou dominivm Aritivm. Podemos presumir então um povo ou grupo étnico que se nomeou ou foi nomeado Arites, cultores de Arés porventura, que senhoreou um vasto território na área em que o nosso estudo se vai instalar, que trataremos ainda, no âmbito deste trabalho, de identificar e demarcar.

segunda-feira, 6 de Abril de 2009

O Tesouro de Baleizão. Um Paradigma.

O Tesouro de Baleizão. Um Paradigma.

Este texto é extracto de uma sequência de intervenções no Forum Arqueologia, uma instituição cibernáutica de estatuto por definir. Foi programado na tentativa de o qualifcar, sonegando-o a insondáveis utilizações desvirtuadas, ou talvez não. Logo se verá.



Caros amigos.

Isto não é uma resposta a Vítor Roma, embora, de forma imediata, tenha sido suscitado por ele. Na verdade, se lerem os tópicos que tenho desenvolvido fora desta polémica, logo deduzirão que, em breve, levantaria estas questões. De resto, iniciei a sua abordagem no meu blog Archaeomania.
Fá-lo-ei à minha maneira, espero que tenham a paciência para seguir o meu raciocínio.

Se eu deixar a porta da minha casa aberta e alguém se introduzir nela para cometer dolo, correrei sempre o risco de que alguém alegue, ou suspeite, de que o fiz deliberadamente, por alguma incógnita razão. Este raciocínio é paradigmático da ficção policial, Agatha Chistie ou Connan Doyle.
E será este o tópico axial desta intervenção, deveria já ter chegado há muito a altura em que se protegesse o património cultural público curando dele e não denunciando atentados irremediáveis, que, em grande parte dos casos, ficam sem autoria atribuída. E curar dele não é encarcerá-lo sob vigilância remota de sofisticados equipamentos, é promover e suscitar a sua partilha pela comunidade, gerando afectos, contextos de fruição múltipla, integrá-lo activamente no quotidiano das gentes, que seriam os seus melhores guardiães.
Sei que não estou a produzir doutrina inovadora, O que reclamo é uma profunda ponderação sobre as formas concretas de a transferir para a prática.
Ora, esta é uma questão urgente para programar um futuro que não pode ser remoto. E que poderia constituir magníficos contextos de integração profissional de muitos jovens qualificados em várias áreas de intervenção sobre o património cultural, nomeadamente arqueológico. Um arqueólogo não tem necessariamente que escavar, haverá cada vez menos escavações para tantos arqueólogos.
Malogradamente, esta questão que nos obriga a ponderar com urgência um futuro próximo, transporta o peso dos episódios do passado. O que se perdeu jamais se recupera. No que respeita à arqueologia, um objecto que perdeu a sua referência ao contexto de que foi exumado jamais o recuperará. Posso ilustrá-lo com a minha experiência, com que não vos vou importunar agora.
Ora, a questão que coloco é: deixa por isso de ser um objecto arqueológico ou matéria arqueológica, ou seja, de suportar um discurso disciplinar arqueológico?
Em minha opinião não; e este é um debate que de forma nenhuma se encontra esgotado.
Suponhamos que o Vítor Roma tem razão, quando alega que parte dos objectos que integram o tesouro de Baleizão estiveram na sua loja em Estremoz em 2000, 2001 ou 2002, tanto faz?
Tal viria apenas consolidar suspeitas já estafadas. Quando digo estafadas não pretendo afirmar que não tenham fundamento ou partam mesmo de certezas, mas que está estafado um certo discurso acerca do que adviria para a validade intrínseca dos objectos a confirmação, já não a suspeita, de que se trata de objectos cujo contexto é já impossível de reestabelecer. Se tal confirmação suportaria a alegação de que, assim sendo, os objectos não interessam à arqueologia.
Mas a colocação desta questão obriga-nos a colocar de imediato outra. Se os objectos não procedem de um achado de Baleizão porque estavam em Estremoz em 2001, então, se admitirmos que a verdade atravessa transversalmente as alegações de Vítor Roma, os objectos proviriam da colecção reunida pelos seus pai e avô, eram conhecidas há mais de meio século. Partindo destas premissas começaríamos a entrar no domínio do absurdo e não haveria melhor ilustração acerca das histórias que se podem acumular sobre um objecto arqueológico descontextualizado do que este episódio.
A partir de então, pegamos numa trincha, varremos do objecto toda esta poeira e detritos que a história recente sobre ele acumulou e olhamos para ele já desempoeirado, atentos à informação intrínseca que nos transmite.
Vou fazer, com todo o respeito que me merece, um pequeno comentário ao texto de Raquel Vilaça para que Vítor Roma remete. Já conheço o texto desde que foi emitido, mas não sei se o Vítor Roma domina de facto a língua inglesa, uma vez que dele não consigo extrair as ilacções que dele quer tirar. Eu estou actualmente a produzir um trabalho de fundo sobre a ourivesaria primitiva da faixa atlântica peninsular e tentarei comentar, em sereno ambiente de partilha académica e científica, várias questões com a Professora Isabel Vilaça, sobretudo o limite do alcance em que podemos superar os métodos analíticos comparativos tradicionais, mobilizando dispositivos e procedimentos de manipulação laboratorial hoje em dia inquestionáveis.
Mas esse comentário não interessa para este local de abordagem, senão após resultar em conclusões consistentes.
É contudo de notar que Raquel Vilaça e Maria da Conceição Lopes são explícitas em lamentar o facto de muitos objectos se terem irremediavelmente perdido com base na rejeição por não aparecerem referidos ao seu contexto de achamento. Uma salutar disposição.
Vou fazer uma pausa neste tema, para iniciar a abordagem de outro.
Neste Fórum já se desenvolveu um debate acerca do uso de detectores de metais, da sua interdição, da legitimidade que suporta essa interdição e do seu alcance e a que circunstâncias se aplica.
O registo que gostaria para já de fazer é o de que nenhum dos arqueólogos de referência, e há vários a acompanhar este Fórum, desceu das suas sobranceiras tamancas para intervir nesse debate. E tenho a certeza de que o debate se teria tornado muito mais interessante se tal se verificasse. E não desonra qualquer arqueólogo intervir neste ou em qualquer outro fórum onde o seu saber se sociabilize e contribua para transferir a investigação arqueológica para o domínio da cultura arqueológica.
Ora, é por isso que eu digo que não sou arqueólogo mas arqueómano e venho da rua.
A arqueologia não é só investigação, nem uma área de salvaguarda de património em que intervêm exclusivamente profissionais arqueólogos, é cultura no sentido amplo de intervenção e partilha por parte da comunidade.
Como é que o Vítor Roma e outros fingiram durante tempo que não era mais do que isto que eu queria transmitir?
Estão então traçadas as linhas orientadoras da intervenção que quero prosseguir. Amanhã.

Um abraço para todos.


Caros amigos.

Prosseguindo.

Vou iniciar esta segunda parte da minha intervenção, retomando o tema com que rematara a anterior.
O meu amigo Professor Carlos Fabião participou em 2006, no fórum Al Madam, então extensão da homónima revista editada pelo Centro de Arqueologia de Almada, visivelmente associado, o Fórum, à comunidade detectorista, num dos primeiros debates públicos estruturados em ambiente cibernáutico acerca do detectorismo.
Por outro lado, tenho tentado mobilizar vários arqueólogos para que se inicie um sereno e profundo debate de que possa sair, ou não, uma consistente proposta de reformulação do corpus legislativo que define, regulamenta e atribui sede à actividade arqueológica, bem como define, até ao estrato derradeiro da propriedade, posse, uso e domínio, o património cultural em geral e arqueológico em particular.
Ao enunciar esta proposta parto sempre do princípio de que o corpus legislativo em vigor constitui um inerte, salpicado de ambiguidades e incoerências, e, por essa razão, não tem, no fundamental, aplicabilidade eficaz. Numa outra intervenção, quando atingirmos a maturidade das questões que programo equacionar, documentarei exaustivamente esta alegação.
Mas, em verdade, nem necessitaria. Porque, de facto, perdoe-me o caro amigo Carlos Fabião esta referência pessoal, a sua intervenção nesse debate acaba por redundar nesta conclusão. E, por mais apelos que faça à punição dos infractores, trespassa o seu discurso a amargura de a actual Lei não conseguir realizar os seus anseios, que, perdoe-me uma vez mais, se transferem do universo da arqueologia para o da psiquiatria. O Carlos Fabião sabe que eu sou assim, bárbaro, bruto e teimoso como um burro, mas leal. Se me responder na mesma moeda, só merecerá um fraterno abraço.
Porque, na minha óptica, que será a de qualquer legislador humanista, uma lei penal deve ser formulada tendo em mira o objectivo de não ter que ser aplicada, ou só o ser em circunstâncias extremas. O dispositivo legislativo envolvente e que a enquadra deve curar da realização desse objectivo.
Vivemos hoje numa sociedade verberativa, em que cada um espera sempre ver nas “garras da justiça” os seus circunstantes, como forma de esconjurar os seus próprios tormentos face à incerteza do futuro e à revolta contra o presente. Esta questão é do profundo foro da sociologia e da psicologia colectiva, mas gerou o perturbante clima da denúncia leviana ou torpe, da difamação impune, da calúnia sem rosto, de outros apelos porventura mais perturbantes.
Como já o disse antes, “culpa mea” ou “mea culpa” no que me compete assumi-la.
Mas, retomando, mal seria de uma lei que fosse produzida meramente para que alguém ficasse à espera que alguém a violasse para lhe cair em cima. O mínimo que se poderia dizer era que se tratava de uma lei persecutória, sem qualquer outro fim. E talvez ineficaz, se ninguém tivesse meios ou paciência para se postar de vigia no local e circunstância onde viria a ser violada.
E esta, associada a outras, é uma questão crucial.

Peço desculpa aos seguidores deste, mas uma nova e inusitada intervenção colateral de Vítor Roma, obriga-me a suspender esta aqui. Mas prosseguirei. Amanhã.

sábado, 7 de Março de 2009

De archaeologica re
Acerca do que se deve considerar matéria arqueológica
Preliminares
Nada há de pior do que escrever, ou pretender constituir doutrina, na crista da onda. É a angústia do repórter ou do jornalista, a de ter que reportar, emitindo juízos ou contextualizações de apreciação, o que acontece, ou acabou de acontecer.
Tanto excelente repórter ou jornalista que se desqualificou neste exercício, porque não pôde reflectir serenamente sobre uma matéria que subjazia, sem que muitas vezes tivesse tido as condições para o ponderar, a um episódio que teve que reportar, na crista da onda. São os riscos da escrita événementielle.
Ora, a matéria sobre que vamos discorrer anda a vaguear, entregue aos caprichos da maré, na crista da onda. Não nos furtaremos todavia, por essa razão, a abordá-la, ou tentar abordá-la, de um determinado ponto de vista. Porque, muito antes de andar a vaguear na crista da onda, vagueava já na nossa congeminação, associada a muitos outros tópicos que entendíamos que perturbavam um ponderado alcance de vista.O que é arqueologia? Qual o alcance e o limite da sua matéria disciplinar, seja, do seu objecto? E quem deve ou quer ser o seu sujeito?O que é um objecto arqueológico e o que o distingue na sua especificidade? E o que é uma actividade, ou, do ponto de vista normativo, um trabalho arqueológico?
Quando, há cerca de dezoito anos, congeminei de forma estruturada esta matéria, entendi abordá-la de esguelha, ou seja, não valia a pena discorrer nos limites que ela pretendia impor-me. Isso equivaleria a abordá-la na crista da onda.
Por isso tive que fazer um exercício. Qual a matéria disciplinar, seja, o paradigma, que me toleraria indiciar as aparentes artimanhas do senso comum? Qual a disciplina que se erigira no núcleo do paradigma da modernidade.
Imediatamente, assim enunciada a questão, a luz acendeu-se. A medicina.
O que é a medicina, o que é a actividade médica, qual o seu objecto e quem o seu sujeito? E qual o papel da medicina, nomeadamente da cirurgia, na ruptura da modernidade com os paradigmas da tradição?
Uma disciplina, do conhecimento, da procura ou da intervenção não é uma entidade transcendente. Estruturou-se sobre um exercício e nos seus contextos, é na sua história que temos que indagar o que veio a estabelecer como os limites do seu alcance, seja, o seu objecto, e a consagrar o perfil do seu sujeito, seja, a conferir-lhe um estatuto e os referentes requisitos.
O caso é que, por essa razão, perdi de vista o móbil primevo e andei perdido durante uns anos pelos herméticos territórios da história da medicina, ou da cultura médica, porque, num dado momento dessa trajectória, não era já a história da medicina, mas a da cultura médica o que me interessava. O leitor virá a compreender porquê. (1)
E a matéria que presumidamente me servira para atacar de esguelha, pelo flanco, a archaelogica res, passara a ocupar a posição de núcleo axial da reflexão e andava a matéria arqueológica agora nos flancos, a rosnar às canelas da medica res.
E voltamos agora à matéria arqueológica na crista da onda. Porque, por mais que desse desígnio se tente furtar, a reflexão epistemológica acaba por redundar em contextos circunstanciais. É assim e pronto.
A arqueologia parece ter regredido até ao Século XVI e XVII, seja, ao período em que a medicina e a cirurgia, as duas em disputa, ordenaram as questões que, do ponto de vista do reconhecimento social do seu exercício, enunciavam o objecto e o sujeito.
Reabre-se então subitamente, em anacrónico contexto, um paradoxo tópico. O que é a arqueologia e qual o seu objecto e quem o seu sujeito, seja, o que é um profissional de arqueologia?
Tal como no Século XVI e XVII aconteceu com a medicina, a arqueologia vai agora redundar numa profissão, o seu sujeito num profissional, os seus objectos em pacientes. È sempre assim, quando se discorre na crista da onda.
Desde algum tempo que, antevendo que a matéria redundaria nestes tópicos, rejeitei a arqueologia, o arqueólogo e os seus objectos. Passei a discorrer sobre archaeomania, passei a querer ser mais um arqueómano e a designar os objectos pressupostamente exclusivos da arqueologia como infirmi ou pacientes.
E a disputar sobre a legitimidade da exclusividade da tutela da arqueologia sobre qualquer objecto.
Não apenas como objecto disciplinar, mas mesmo como objecto de uso e de exercício de múltiplas fruições ou de múltiplos contextos de fruição. E como sujeitos de múltiplos apelos.
E aqui estamos, na crista onda.
(1) Remeto o leitor para uma colectânea de ensaios que nunca consegui, nem porventura conseguirei concluir. Por isso continuam, desde há anos, no prelo.
Quando conseguir concluí-los, nem sei o que fazer então. Se tiver pois a paciência que eu já não tenho para lê-los, considere-os inconclusos e, se assim quiser, bem pode concluí-los, ao seu modo.
Acerca do objecto arqueológico
Em última análise, já o escrevi em vários contextos, a definição de objecto arqueológico e de objecto da arqueologia, caberá, do ponto de vista normativo ou coercivo, à arqueologia e aos arqueólogos.
Presumir-se-ia então que, previamente à formulação desta questão, deveríamos questionar o que é a arqueologia e o que é um arqueólogo. Até porque, como já apurámos nas nossas incursões pelos territórios da história de outras disciplinas, é o sujeito quem, consolidado o estatuto que reclamou, reclama a exclusividade sobre os objectos e lhes confere, a eles próprios um estatuto.
Ora, do ponto de vista da arqueologia temos que inverter este itinerário. Porque foi a própria arqueologia, no contexto da sua história recente, que gerou esta inversão e ambiguidade.
E a ambiguidade consiste no seguinte: o objecto arqueológico é propriedade ou domínio universal da comunidade, porque transporta a sua e a transporta para a sua colectiva memória, é um vínculo de solidariedade social no âmbito de uma dada comunidade e, nesse sentido, é pertença de todos.
Todavia, a arqueologia resguarda um domínio muito amplo da relação com o objecto arqueológico para a sua exclusividade e para a delineação desse domínio é crucial a definição do estatuto arqueológico do objecto.
Enquanto não escalpelizarmos exaustivamente esta matéria não vamos longe na abordagem de outras, seja, na definição do estatuto profissional do arqueólogo, na definição do objecto disciplinar da arqueologia, na definição de trabalho ou actividade arqueológicos em sentido estrito normativo, na definição da relação entre propriedade, posse, uso e domínio do objecto arqueológico.
Ora, o que é então um objecto arqueológico? Nada, objectivamente nada. E tudo.
Na verdade a definição de objecto arqueológico, como entidade singular e restrita, só pode ser estabelecida em referência à definição de objecto disciplinar da arqueologia, em sentido lato, seja, quais são as matérias sobre que a arqueologia se debruça.
Na sociedade actual, em que a cultura e o acesso à cultura se sociabilizou, a habilitação para uma corporação ou mesmo uma área disciplinar em abstracto, despojada teoricamente da enunciação dos seus sujeitos, enunciar a exclusividade da sua intervenção e delimitar um objecto, ou um universo de objectos restringiu-se significativamente.
Poderemos recorrer de novo, como paradigma, à medicina. Como é óbvio, no que à medicina respeita, a definição do seu objecto, ou dos seus pacientes, é desde logo restringida pela vontade de cada um, que tem a liberdade, todavia condicionada pela dramática necessidade da realidade da vida, de recusar a dispor-se como objecto.
Dado a sua específica natureza, uma vez que interfere com a derradeira liberdade de o indivíduo dispor do seu corpo, pelo menos no âmbito doutrinal de uma sociedade livre, a medicina encontra-se assediada por complexas questões de natureza deontológica e epistemológica, que deixaram de lhe dizer exclusivamente respeito, porque a sua abordagem se sociabilizou e tão habilitado se encontra o enfermo para se pronunciar sobre a legitimidade do acto ou da actividade médica, quanto o médico.
Para mais, a medicina institucionalmente reconhecida numa dada sociedade, pese todavia o peso institucional das corporações médicas, encontra sempre cada vez mais estruturadas resistências de propostas disciplinares alternativas, que podem mesmo questionar todo o edifício doutrinal dos seus fundamentos. Ou seja, cada medicina teve que confrontar-se com o facto, incontornável, da diversidade. Há várias medicinas, cada uma com os seus fundamentos doutrinários, com as suas propostas de intervenção sobre a matéria ou matérias médicas, quase todas disputando contra a exclusividade das outras ou reclamando-a para si.
É no domínio axial destes debates que o estatuto dos sujeitos se reestruturará também.
Mas de novo se interrogará o leitor, que terá a ver a medicina com a arqueologia?
Tem a ver, do ponto de vista da abordagem da matéria própria de uma disciplina, com todas as outras disciplinas. Mas, em particular, com a arqueologia.
Porque se o objecto da arqueologia se considera património colectivo de uma dada comunidade, sendo de ressalvar que foi a própria arqueologia que durante décadas da sua história recente acentuou a tónica deste tópico, então a comunidade e cada um dos seus segmentos ou sujeitos singulares devem poder pronunciar-se não apenas sobre matéria arqueológica em sentido lato, como sobre a delimitação do domínio estrito das intervenções que requerem um dado estatuto, seja social, académico, profissional ou meramente técnico.
Que sentido faria que alguém viesse reclamar que uma associação local ou regional, de formação espontânea, de cidadãos preocupados com questões ambientais, vinculado à protecção e estudo de uma espécie, não poderia intervir em qualquer domínio que entendesse adequado a realizar os seus fins, desde o recenseamento, a observação e até o apoio aos dispositivos de reprodução, mesmo que a sua actividade chocasse com os programas institucionais de intervenção, que, na sua maioria, as comunidades não conhecem ou liminarmente rejeitam?
Suspendamos provisoriamente esta perspectiva de formulação do assunto, para questionar de novo: o que é um objecto arqueológico?
Bem, começaria por propor que depende de quem enuncia a natureza arqueológica de um objecto, ou a sua exclusão do universo da arqueologia.
Eu posso muito bem tratar como um objecto arqueológico aquele que um arqueólogo, ou todos rejeitaram. E não faço mais do que usar da minha liberdade de me relacionar com um objecto da forma que entender.
É óbvio que a minha relação com um objecto, seja ou não arqueológico, está à partida sujeito a limites de alcance, na maior parte dos casos normativamente ou legalmente delineados e enquadrados. E estamos já a cruzar a análise da proposição objecto arqueológico com essa outra trabalho ou actividade arqueológica.
E atingimos então o cerne da questão.
Interludens
De praecaria lege, celeriter emissa, celeriter cadente
E então, como calhou que interviéssemos sobre a matéria na crista da onda, façamos aqui um interlúdio, suspendamos brevemente as questões de fundo, que são as que interessam, para assobiar descontraidamente no passeio público, onde todas as conjuras conjurativamente se tangem.
A interpretação de senso comum de que, numa democracia liberal, o Estado representa o interesse colectivo dos cidadãos, ou da maior porção deles, é talvez uma das mais mediáticas perversões do sentido doutrinário que lhe subjaz. A mais radical proposição, ou interpretação, seria a de que o Estado é sede de exclusividade de tal representação, deduzida da expressão eleitoral que reclama.
E, não fora todavia a sequência avassaladora de episódios mais ou menos burlescos que afectam irrecuperavelmente a confiança dos cidadãos, mesmo dos eleitores das maiorias, na função do Estado na cúria da res publica, mesmo assim, tal interpretação adviria de uma perversão dos princípios doutrinários da democracia liberal.
A mais linear configuração, em contexto de expressão jurídica, da formulação doutrinária da função do Estado numa democracia liberal, de resto sempre invocada como paradigma, é a consignada no direito penal americano, the United States versus sicrano ou fulano. Quando se senta no banco do tribunal, como réu ou como queixoso, ou acusador, o Estado coloca-se teoricamente em pé de igualdade com o cidadão, seja singular ou colectivo. E digo teoricamente porque, na prática, bem o sabemos, o Estado pode mobilizar meios, aparatos e dispositivos que o cidadão comum não alcança, ainda que de alguma forma tenha contribuído para os suportar financeiramente.
As súbitas e inesperadas ocorrências que abalam nos seus fundamentos a sociedade global desde há cerca de um ano, ou que se tornaram visíveis desde então, vão com certeza obrigar a profundas reflexões sobre o papel do Estado na sociedade do futuro e sobre a sua relação com os cidadãos, singular ou colectivamente constituídos. O risco que corremos é o de as soluções precederem as reflexões. Se tal acontecer, em minha opinião, o Estado reforçará a esfera de exercício de poderes arbitrários debilitando a esfera de intervenção dos cidadãos.
Introduzo então outra questão. É óbvio para todos que a maior debilidade, ou talvez legitimidade reforçada, de um sistema jurídico ou aparato normativo reside no facto de nenhum conseguir cobrir a imensa complexidade da vida humana e das relações entre os seres humanos entre si, ou entre estes e as coisas. Para além do mais, nenhum aparato normativo consegue a acompanhar com eficácia a celeridade das contínuas alterações estruturais das relações sociais.
Quando a sociedade se move e se altera, a lei caduca. E se não caduca formalmente, atrapalha, não cumpre o seu papel substancial, permanece como uma grilheta que impede a natural mobilidade das relações sociais. Bem, devemos admitir que, nesses casos, a sociedade se tem revelado surpreendentemente criativa e hábil para conviver com os aparatos normativos que transcendem a complexidade do drama do seu quotidiano. Ou seja, há sempre um território da vida humana onde a lei não consegue introduzir-se ou interferir.
Devo contudo assinalar desde já um pressuposto. Não sou juiz, nem advogado ou magistrado. O que não me impede de manifestar a minha opinião sobre a res juris, como a manifesto sobre a archaeologica res não sendo arqueólogo, ou sobre a medica res não sendo médico, talvez mais bruxo ou feiticeiro.
Ora, para que não nos percamos em temas triviais, sintetizemos o corpus normativo que condiciona as proposições nominais objecto ou património arqueológico, actividade ou trabalho arqueológico e arqueólogo, mais propriamente profissional arqueólogo. Aqueles poucos a que, incompreensivelmente, no momento em que se trata de reformulação dos aparatos normativos, quase todos os intervenientes parecem incontornavelmente vinculados.
E citaremos, por bastantes para o efeito, os seguintes:
A Convenção Europeia para a Protecção do Património Arqueológico, subscrita em 1997 por 28 Estados.
A Lei de Bases do Património Cultural Português, decretada pela Assembleia da República em 2001.
Na Lei de Bases (..) é o Capítulo II que trata na sua especificidade do Património Arqueológico, cuja definição específica e cujas disposições a que se sujeita devem ser enquadradas para os correspondentes introdutórios e genéricos.
No Artigo 77 do referido Capítulo determina-se:
Artigo 77.º
Trabalhos arqueológicos
Para efeitos da presente lei, são trabalhos arqueológicos todas as escavações, prospecções e outras investigações que tenham por finalidade a descoberta, o conhecimento, a protecção e a valorização do património arqueológico.
São escavações arqueológicas as remoções de terreno no solo, subsolo ou nos meios subaquáticos que, de acordo com metodologia arqueológica, se realizem com o fim de descobrir, conhecer, proteger e valorizar o património arqueológico.
São prospecções arqueológicas as explorações superficiais sem remoção de terreno que, de acordo com metodologia arqueológica, visem as actividades e objectivos previstos no número anterior.
A realização de trabalhos arqueológicos será obrigatoriamente dirigida por arqueólogos e carece de autorização a conceder pelo organismo competente da administração do património cultural.
Não se consideram trabalhos arqueológicos, para efeitos da presente lei, os achados fortuitos ou ocorridos em consequência de outro tipo de remoções de terra, demolições ou obras de qualquer índole.
No Artigo 74 do mesmo Capítulo, tratara-se já da definição específica de património arqueológico, seja objecto arqueológico ou da arqueologia.
Artigo 74.º
Conceito e âmbito do património arqueológico e paleontológico
Integram o património arqueológico e paleontológico todos os vestígios, bens e outros indícios da evolução do planeta, da vida e dos seres humanos:
Cuja preservação e estudo permitam traçar a história da vida e da humanidade e a sua relação com o ambiente;
Cuja principal fonte de informação seja constituída por escavações, prospecções, descobertas ou outros métodos de pesquisa relacionados com o ser humano e o ambiente que o rodeia. O património arqueológico integra depósitos estratificados, estruturas, construções, agrupamentos arquitectónicos, sítios valorizados, bens móveis e monumentos de outra natureza, bem como o respectivo contexto, quer estejam localizados em meio rural ou urbano, no solo, subsolo ou em meio submerso, no mar territorial ou na plataforma continental.
Os bens provenientes da realização de trabalhos arqueológicos constituem património nacional, competindo ao Estado e às Regiões Autónomas proceder ao seu arquivo, conservação, gestão, valorização e divulgação através dos organismos vocacionados para o efeito, nos termos da lei.
Entende-se por parque arqueológico qualquer monumento, sítio ou conjunto de sítios arqueológicos de interesse nacional, integrado num território envolvente marcado de forma significativa pela intervenção humana passada, território esse que integra e dá significado ao monumento, sítio ou conjunto de sítios, e cujo ordenamento e gestão devam ser determinados pela necessidade de garantir a preservação dos testemunhos arqueológicos aí existentes.
Para os efeitos do disposto no número anterior, entende-se por território envolvente o contexto natural ou artificial que influencia, estática ou dinamicamente, o modo como o monumento, sítio ou conjunto de sítios é percebido.
Os sublinhados são meus.
Não sou obviamente o primeiro a emitir o juízo de que o âmbito desta definição de trabalho arqueológico não apenas é de um radicalismo, a bem dizer prepotência, que só pode motivar a sobranceria e ironia, mas, sobretudo, a sua radical intenção de abranger tudo só poderia ter como consequência a de que não consegue abranger nada. Teoricamente, ou não tão teoricamente como isso, citaremos mais adiante episódios reais, poder-se-ia deduzir desta formulação que eu, que não sou arqueólogo mas arqueómano, não posso ler uma publicação científica sem pedir autorização, ou acompanhado por um douto arqueólogo. Pelo menos, não posso passear pelo campo a olhar para o chão, mesmo que nem sequer levante um calhau para afugentar um cão vadio, não vá andar por ali a guarda e prender-me. Se andar pelo campo devo andar a olhar para o céu, a espiar os passarinhos e a assobiar.
Como é óbvio virão os protagonistas da produção do diploma e da defesa da sua preservação essencial alegar que ela foi redigida assim para poder ser contextualizada. E eu alego que tal alegação significaria que os seus executores poderiam em qualquer momento aplicá-la segundo as circunstâncias, de livre arbítrio.
Bem, cruzemos esta definição com aqueloutra que respeita à de património arqueológico, seja objecto arqueológico ou da arqueologia.
Não seria também o primeiro a emitir o juízo de que o âmbito desta definição pode abranger tudo, sem abranger quase nada especificamente. E de que a formulação cuja principal fonte de informação seja constituída por escavações, prospecções, descobertas ou outros métodos de pesquisa relacionados com o ser humano e o ambiente que o rodeia contribui para a ineficácia essencial da formulação. E então aparecem depois os arqueólogos a alegar que o contexto é fundamental para a atribuição da denominação arqueológico a um objecto, ou a um universo de objectos que, do ponto de vista da interpretação literal do texto legal, pode até ser um tema, ou um assunto.
Bem, também se deduz do texto legal, ao contrário do que se vem especulando na crista da onda no domínio das abordagens triviais, mesmo emanadas por instituições ou entidades, individuais e colectivas, credenciadas, que, do património arqueológico, só constitui património nacional aquele que procede ou se identifica em resultado de trabalhos arqueológicos. O restante fica ao abrigo do disposto para o património cultural em geral, mesmo no que toca à aparentemente exaustiva caracterização dos regimes de propriedade, posse, domínio e uso.
Como é óbvio, o conhecimento e a valorização do património cultural são considerados, no espírito e na letra da Lei, direito e dever de cada cidadão, uma vez que são domínio da comunidade, exercido, independentemente do regime de propriedade, de acordo com o estabelecido genericamente.
Bem, para já, até retomarmos o assunto, importa apenas ressalvar que a definição de património arqueológico enunciada na Lei de Bases de 2001 é recorrente, literalmente, da que constava no texto da Convenção de 1997.
Ora, é no âmbito restrito destas formulações, mais uns poucos instrumentos regulamentares, que se pretende proceder à reformulação do estatuto profissional do arqueólogo e das condições de exercício da actividade, ou disciplina, bem como do universo de matérias, coisas e objectos a que respeita. No contexto em que o Estado anuncia a extinção da Carreira Profissional de Arqueólogo e em que muitas circunstâncias em que a arqueologia reclama o direito de exercer a sua actividade e tutela são contestados por segmentos cada vez mais extensos da comunidade, que tem tanta razão quando a acusa de relaxe como de excesso de cúria, as abordagens sistemáticas e doutrinárias abrangentes parecem-me muito mais relevantes do que as soluções circunstanciais.
Enfim, apenas em sentido alegórico, uma Babilónia... Que lei poderia ser aplicada numa Babilónia em que cada um fala a sua língua?